Enviado por Paulo Briguet, 06/11/2008 às 12:44

Joguem minhas cinzas


Joguem minhas cinzas
no ar, que foi meu lar;
na água, meu batismo;
na terra, meu caminho.
Joguem minhas cinzas
no pequeno cataclismo
em que estarei sozinho.

Joguem minhas cinzas
na chuva, na tempestade.
No fogo, pelos pecados;
na sombra, pelas mentiras;
no vento, que é vaidade.
Joguem minhas cinzas.
No vazio, joguem metade.
No caos, joguem o resto.
Por faltar com a verdade
– que eu não presto, eu não presto.

Joguem minhas cinzas.
Nem hoje, nem amanhã,
mas num dia qualquer,
sem festa nem santo,
sem efeméride.
Joguem minhas cinzas
sem dó e sem pranto
(não é bom-tom usá-lo).
Joguem minhas cinzas
num canto, num ralo,
num vértice.
E, se quiserem ousá-lo,
joguem minhas cinzas
na merda.

Joguem minhas cinzas
nos livros.
Nas palavras
que ficaram pelo meio
de si mesmas,
nos papéis,
nas resmas.
As frases
que calaram
(e a hora de falar
não veio).

Espalhem minhas cinzas
nos bares, nas igrejas,
nos lares dos amigos,
na vala dos mendigos.
Espalhem minhas cinzas
nos templos, nos governos,
nos vazios, nas falésias.
Espalhem minhas cinzas,
depois esqueçam-nas:
que o pó é amnésia.

Joguem minhas cinzas
sobre as cinzas,
para que o ódio
não mais reine.
Joguem minhas cinzas,
e o resto queimem.

Joguem minhas cinzas
de judeu-cristão
na roda do tempo,
na rosa-dos-ventos,
na ruína do Templo,
nas mãos dos elementos.
Joguem minhas cinzas
no alto-mar dos mares,
em todos os lugares
onde o pó vai navegar.
Joguem minhas cinzas,
mas joguem devagar.

Joguem minhas cinzas
no mundo e perdoem
estas cinzas pelo ar
que um dia respiraram,
não sabendo perdoar.

Joguem minhas cinzas
em qualquer lugar.
Onde for mais fácil
e mais barato jogar.

E, se faltarem cinzas,
amigos, paciência.
Que a poeira não acaba,
que a poeira se inventa.

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Enviado por Paulo Briguet, 03/11/2008 às 23:42

O último pioneiro


O velho sempre acordava antes do Sol. Naquela manhã não foi diferente. Mas, apesar de um antigo hábito, ele não quis rezar. O escuro ainda era profundo; os pássaros não haviam começado a algazarra. Ao longe, ouvia-se a voz de um jovem bêbado remanescente da noitada. Chovera; o velho sabia disso porque um automóvel havia acabado de passar pela avenida – talvez também egresso da farra – e os pneus haviam produzido o som característico do asfalto molhado.
Nas outras manhãs, o velho sempre rezava – não a Deus, mas aos santos. Não se considerava digno de elevar a palavra diretamente ao Criador. Deus tinha muitos afazeres, ele pensava, não era bom que perdesse Seu precioso tempo com um homem sem importância. O velho rezava aos santos, intermediários de respeito; no entanto, mais próximos da miséria humana. Mesmo assim, fazia uma espécie de escala para não sobrecarregar nenhum deles; se ontem houvesse rezado para São José, hoje falaria com São Francisco de Assis; depois seriam as vezes de Santa Cecília, Santo Antônio, São Paulo, Nossa Senhora de Fátima, Santo Expedito, São Roque, São Longuinho, São Benedito, Santa Clara.
E rezava também – isso ele não confessaria a ninguém – para alguns santos que conhecera em vida: seus pais, Maria e Orestes; sua irmã Margarida, que morrera de tifo aos três anos de idade; o padre Ranulfo, seu antigo confessor; o desconhecido cujo nome ele nunca soubera, mas que havia se afogado ao salvar uma criança no Tibagi; o mendigo Raimundo, que dividia suas esmolas com os outros mendigos; os amigos Teodoro e Gonçalo, que haviam trabalhado na marcenaria quando ele, o velho, era jovem.
Há muito tempo não ia à missa. Essas missas de agora estavam muito barulhentas. A fé do homem era tão velha e silenciosa como ele. Virou-se na cama e, mais uma vez, surpreendeu-se porque a mulher não estava lá. Em 33 anos de viuvez, ainda não se acostumara à ausência de Rosa.
O Sol nascia com a lentidão das manhãs de domingo. Até mesmo os pássaros silenciavam. O galo desaparecera há muitos anos, antes mesmo da partida de Rosa. Mas o velho só percebera que os galos não cantavam mais depois que Rosa atravessou o rio.
Ficou deitado na cama, pensando em Rosa, em como era diferente o gosto do café que ela passava antes de ele ir para a marcenaria.
De repente, alguém abriu a porta e o quarto se iluminou. Quem era? Certamente não eram os filhos; moravam todos longe e nunca o visitavam. Era um homem de batina.
– Padre Ranulfo, o senhor por aqui! Quero me confessar.
– Você não tem pecado nenhum para confessar, meu velho. Venha comigo. Já passou muito tempo; você é o último.
E lá fora já era dia, um dia brilhante como o velho nunca vira. O padre Ranulfo atravessou com ele as águas do Tibagi; do outro lado do rio, todos os santos o esperavam. E Rosa sorria.

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Enviado por Paulo Briguet, 31/10/2008 às 13:21

O ventríloquo e o PAU

Tenho numerosas e boas idéias. O problema é que numerosas não são boas e as boas não são numerosas. A maioria das boas, ainda que poucas, eu as tenho debaixo do chuveiro.
Discordo quando dizem que as últimas eleições não valeram nada. Para mim, valeram. Na propaganda política, foram exibidas imagens de um candidato falando cobras e lagartos. As imagens eram de um antigo programa de TV, onde havia um divertido bonequinho falante, que emitia sons agudos e jocosos.
E o que isso tem a ver com o meu chuveiro e as minhas idéias? Tudo, ora. A voz do bonequinho me fez lembrar um antigo sonho de infância: tornar-me ventríloquo. Para quem não sabe, ventriloquia é a arte de falar sem mover os lábios, emitindo sons que parecem vir de outra pessoa – ou de um boneco.
Pois bem. Debaixo do chuveiro, comecei a treinar meus dotes de ventríloquo. E descobri que ventriloquia é igual a andar de bicicleta: a gente continua sabendo, mesmo sem praticar por muitos anos.
Vocês devem imaginar o susto de minha esposa e minha mãe – elas imaginaram que eu estava tendo um piripaque no chuveiro. Mas era apenas a minha tentativa de falar sem mover os lábios, imitando o bonequinho cuja voz ouvi na propaganda política: “Ca-chor-ro!” “Ra-paz!” “Uia!”
Estou aperfeiçoando minha técnica. Em breve, quero usar a ventriloquia na presença de políticos, fazendo com que eles digam o que não querem dizer. “Sou culpado!” “Renuncio!” “Nunca mais serei candidato!” O que vocês acham?
Mas os políticos de Londrina podem ficar sossegados; como eu prometi não me chatear com a vida pública local, meus ataques de ventriloquia serão direcionados a políticos de outras esferas. “Obama? McCain? Ma... quem é Obama?”
Se vocês me virem falando de política por aí, certamente não sou eu. Deve ser alguém muito parecido comigo. Tenho vários sósias espalhados pela cidade. Não posso garantir que todos se comportem bem.
Mas eu falava de boas idéias. Ontem, tive mais uma. Excepcionalmente, não foi durante o banho. Foi durante um apagão elétrico, depois da ventania. Fiquei pensando tanto em lâmpada que – plim! – acendeu uma idéia.
E essa idéia – que eu julgo boa, mas vocês podem não concordar – é a fundação de um partido. O nome será PAU – Partido dos Alienados no Úrtimo. O PAU não precisa de registro na Justiça, não precisa de sede, não precisa de recursos, não precisa nem mesmo de filiados. O PAU não terá candidatos a nada. As únicas funções do PAU serão encher o saco dos políticos, combater a onipresença do governo, atormentar o estado paternalista que infantiliza os indivíduos.
Para que tanta preocupação com o futuro da cidade? Vamos contratar um administrador de condomínios e seguir adiante. Se dá certo nos prédios, por que não vai dar certo NAQUELE prédio? Essa é a proposta do PAU.
Uau! Esse é o PAU! Se alguém quiser se filiar, pode desistir. É cada um por si.

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Enviado por Paulo Briguet, 24/10/2008 às 10:36

Dependendo da tua escolha


Dependendo da tua escolha, o ladrão se sentirá mais livre para roubar tua casa; o traficante, mais livre para vender drogas a teu filho; e o assassino, mais livre para matar quem mais amas, ao primeiro sinal de tua resistência. E ninguém estará lá para ouvir o teu grito de socorro ou arrependimento.

*****

Dependendo da tua escolha, o diabo poderá rir ou chorar. Mas vai rir muito, vai gargalhar mesmo, se um dia descobrires, mais uma vez, que tomaste a decisão errada.

*****

Dependendo da tua escolha, os bandidos podem ou não invadir a aldeia onde vives. Da mesma forma que um punhado de açúcar atrai formigas e baratas, uma decisão errada atrai as hordas.

*****

Dependendo da tua escolha, o rico – o milionário! – que finge amar os pobres ficará ainda mais rico; e tu, pobre homem, ficarás ainda mais dependente da boa vontade dos quadrilheiros.

*****

Dependendo da tua escolha, o novo ano, numa incrível metamorfose do calendário chinês, será o ano do polvo. Veja bem: o polvo é um animal com muitos tentáculos.

*****

Dependendo da tua escolha, o Criador poderá desistir da criação – ao menos pelos próximos anos.

*****

E o empresário honesto, que tenta administrar seus negócios com eficácia e sem depender dos favores oficiais, sentirá que todo esforço foi em vão. De que adianta a competência, se alguém que fez a máquina pifar por três vezes é aclamado pela maioria? Por que tanto esforço, se a desonestidade e incompetência combinadas falam mais alto e se anulam uma à outra, qual um espelho do demônio?

*****

E o trabalhador honesto, que cuida da sua família, paga seus impostos e lutou para pagar a casa própria, será obrigado a reverenciar aquele que supostamente fez tudo isso por ele – dependendo da tua escolha.

*****

E o nome da tua aldeia vai mudar. Doravante – dependendo da tua escolha! – será Nova Estocolmo. Pois não é a síndrome de Estocolmo que faz a vítima amar o criminoso?

*****

Dependendo da tua escolha, prepara teu coração para mais prisões, mais cassações, mais escândalos, mais vergonha.

*****

Dependendo da tua escolha, os noticiários de polícia e política serão cada vez mais o mesmo, o único, o inseparável.

*****

Dependendo da tua escolha, os velhos homens, aqueles que não vivem mais em carne e osso, porém observaram (e observam) tudo que aconteceu (e acontece), poderão sentir pena e nojo de seus descendentes. E se escutares, ao final do dia decisivo, um ruído estranho, não será a comemoração dos vencedores ou o pranto dos vencidos – será o grito de vergonha que vem do além. E tudo isso dependerá de tua escolha.

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Enviado por Paulo Briguet, 22/10/2008 às 11:09

O príncipe deste mundo


O mais triste, rapaz, foi que por um momento eu cheguei a acreditar em você. Todos mudam; por que você não poderia ter mudado para melhor? Pensei até em lhe dar meu voto de confiança. Mas uma voz interior me dizia que não era um passo seguro. O tempo me ensinou a evitar mudanças repentinas – mesmo que sejam cultivadas por longos anos.
Você falava; você escrevia; você parecia estar em todos os lugares. Mostrou seu domínio completo, ou quase completo, sobre os meios de expressão. Mas, entre uma fala e outra, eu notava, aqui e ali, uma inflexão desgarrada; uma frase infeliz; um adjetivo sarcástico. Fui pinçando elementos estranhos, levemente comprometedores, talvez ambíguos, até um pouco alarmantes. Achei certas sombras naquilo que saía da sua boca. É que um antigo hábito, ou vício, me faz prestar demasiada atenção aos detalhes.
E aquela esperança se transformou em suspeita; e a suspeita se transformou em medo; e o medo se transformou em escândalo; e, agora, você se encarrega de confirmar pessoalmente todas as piores expectativas.
Você falhou, rapaz. Falhou feio. Você dançou, rapaz. Dançou feio – e com a pior companhia possível. Você transformou a dúvida silenciosa em certeza gritante. Você não mudou nada. Ou talvez tenha mudado – para muito pior. Vá ser feliz – mas bem longe daqueles que um dia acreditaram em você.
É claro que, um dia, você poderá pedir perdão aos que lhe deram o benefício da dúvida. Mas não será agora, nem amanhã, nem depois de amanhã. Se isso acontecer, pode contar com o meu perdão antecipado. Só há um detalhe: perdoar, como já disse um amigo velho, não é igual a ser idiota. Perdoaremos; mas não conte com o nosso apoio para cuidar do galinheiro ou receber a chave do cofre.
Certa vez, durante uma polêmica, Mary McCarthy disse que todas as palavras de Lilian Hellman eram mentirosas – inclusive os artigos, preposições e conjunções. Sinto-me inclinado a dizer o mesmo de você, rapaz. Você errou. Errou feio. Você dançou. Dançou feio. De certa maneira, deve ter lhe passado pela cabeça – ecos de um Maquiavel mal-digerido – a mesma frase que o seqüestrador exclamou, antes de matar a ex-namorada: “Eu sou o príncipe do gueto”. Você não matou ninguém – só a confiança. E já é o príncipe deste mundo que escolheu.
Agora eu já sei o que havia de errado no que você dizia ou falava: não eram pequenas sombras. Era o clarão da mentira – em cada letra, em cada vírgula, em cada ponto.

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Enviado por Paulo Briguet, 20/10/2008 às 10:39

Meus pêsames

Nesta manhã de segunda-feira (não poderia haver dia mais apropriado), um jovem deputado de Londrina anunciou publicamente o seu suicídio político.

*****

Dentro da primeira casa, silêncio. Todos estavam cabisbaixos em volta da mesa. Entrei, também calado, e ocupei uma cadeira ao canto da sala. Depois de alguns instantes de meditação, sob a luz mortiça, o pedreiro levantou a mão calejada e pediu a palavra:
– Se o ladrão vencer, não quero mais construir nada. De que adiantará colocar tijolo sobre tijolo, se o material sumir todos os dias? Nunca mais acreditarei nas fundações das casas. O muro não será mais arrimo; o telhado não será mais proteção. Todos irão esquecer que o verdadeiro cimento não é a massa, mas a confiança.
O professor emendou:
– Por que ensinar história, se cospem na história? Por que ensinar matemática, se ignoram a subtração? Por que ensinar português, se o idioma só é usado para a mentira?
– Não vou fazer mais roupas; se o ladrão vencer, a nudez não será vergonhosa – disse a costureira.
– Se a justiça for abandonada aos algozes, não haverá mais sentido em defender ou acusar ninguém – falou o advogado.
– Plantar para quê? Decerto, todos vão querer surrupiar os grãos assim que vier a época da colheita – observou o agricultor.
– Se o ladrão triunfar, vou-me embora. Para tudo há um limite. Não vejo motivo para converter aqueles que insistem no pecado – asseverou o padre.
– Todos rirão daquele que combate as ervas daninhas – comentou o jardineiro.
– Lavar a louça? Arrumar a cama? Limpar o chão? Se a sujeira vencer, por que vou cuidar da casa? – perguntou a doméstica.
– Se a maioria optar pelo mal do espírito, que sentido haverá em curar o corpo? – indagou o médico.
Por fim, depois de um longo silêncio, um homem apareceu à porta. Estava com roupa de serviço. Tirou respeitosamente o quepe e disse em voz baixa:
– Que sentido haverá em vigiar todas as noites? Se o maior ladrão vencer, quem vai se preocupar com os menores?
Era o guarda noturno.

*****

Na segunda casa, havia festa. Música alta, brindes, risadas. O assaltante se congratulava com o seqüestrador. O batedor de carteiras contava uma anedota ao traficante. A estelionatária mostrava as jóias à golpista. O torturador, já bêbado, se gabava dos próprios feitos para um grupo de falsários.
Ouviu-se o barulho dos rojões. Todos exultaram. Mas o assaltante pediu silêncio:
– De repente, fiquei preocupado. E se o ladrão resolver ficar honesto?
O traficante ergueu o copo e disse:
– Nesse caso, nós estaremos aqui para impedi-lo!
A festa continuou. Lá fora, o guarda noturno passou com a sua bicicleta, silencioso.

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Enviado por Paulo Briguet, 13/10/2008 às 13:14

Dr. Novaes e a vergonha


Encontrei dr. Novaes na biblioteca. Ele folheava um livro de Aristóteles.
– Tudo bem, garoto?
Para o dr. Novaes, sou apenas um garoto. Fiquei feliz com o tratamento. Antes que eu pudesse responder, ele me lançou outra pergunta:
– Você sabe o que é a vergonha, Briguet?
Também fiquei muito feliz por ele saber meu nome. Mas dizem que o dr. Novaes sabe tudo. Pensei um pouco e respondi:
– Mencken diria que a vergonha é aquilo que deixa de existir quando os outros não estão olhando.
– Gosto do Mencken, mas ele estava errado. A vergonha de verdade é a que sentimos de nós mesmos. Quem não sente esse tipo de vergonha é um monstro.
– O senhor quer dizer que a vergonha e a culpa são diferentes?
– Quem tem culpa e age como se não tivesse é incapaz de sentir vergonha. Volto a dizer: não é um homem, é um monstro. Ao homem de verdade, poderíamos dizer aqueles versos de Drummond: “Teus ombros ombros suportam o mundo / e ele não pesa mais que a mão de uma criança”.
– Dizem que o homem é o único animal que fica vermelho.
– Embora não enrubesçam, os animais também sentem vergonha. Há alguns que fogem para o mato e se isolam quando sabem que vão morrer. Não querem submeter os outros à visão da agonia.
– No Rio de Janeiro, elegeram uma vereadora que está presa. Não é vergonhoso?
– Quem votou nessa senhora pode alegar que foi obrigado a isso pelo tráfico ou pelas milícias. A maior vergonha é quando se escolhe o pior sem ninguém obrigar a fazê-lo.
– O senhor viu aquele jovem que matou o outro na farmácia? Será que ele não sentiu sequer uma faísca de culpa ou vergonha?
– Eu vi essa cena na televisão. Fiquei horrorizado. E pensei em como os jovens, por acharem que a juventude é eterna, podem agir de modo inconseqüente – e muitos ainda se vangloriam disso. A principal arte do demônio é fazer o mal ser visto como virtude, e vice-versa.
– E o que vai acontecer agora, dr. Novaes? Vamos virar vergonha nacional?
– Não sei, Briguet. Alguns sábios consideravam Aristóteles um profeta. Vamos ver o que ele diz: “A felicidade consiste em ações perfeitamente conformes à virtude absoluta, (…) aquela que tem por objetivo a beleza e a honestidade”.
– Estaremos à altura destas palavras?
– Não sei, meu filho. Agora preciso ir andando. Lá onde eu moro, tenho muitos livros para ler.
– Mas…
– Já sei o que você vai perguntar. Sim, você pode narrar este nosso encontro numa crônica. Mas termine o texto com um apelo aos jovens.
– Qual apelo, dr. Novaes?
– Há coisas que a gente deve fazer antes de morrer e coisas que a gente deve morrer antes de fazer. Pensem bem. Não façam nada que possa lhes possa causar vergonha diante de seus netos.

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Enviado por Paulo Briguet, 03/10/2008 às 11:40

Memórias do pó

O epitáfio da escritora Dorothy Parker diz: “Excuse my dust”. Em português, ficaria: “Desculpe o pó”. O romance mais famoso de John Fante é “Pergunte ao pó”, cujo título original em inglês fica mais bonito: “Ask the dust”.
Perdoem-me os leitores politizados, mas ultimamente um dos meus principais temas de reflexão tem sido o pó. Não estou falando de cocaína, heroína e outras substâncias, pelas quais não tenho o mínimo interesse ou simpatia, mas do pó no sentido mais amplo do termo.
O pó me diz mais que a queda das bolsas e a propalada crise do capitalismo. Para desgosto dos revolucionários de todos os matizes, o capitalismo sempre dá um jeito de sair ganhando no fim. Sabem o desenho do Pica-Pau? O capitalismo é o Pica-Pau – sobrevive a tudo. Aí está o segredo do sistema – que não é segredo algum. O capitalismo trouxe inúmeros e inauditos benefícios para a humanidade; e os maiores críticos do sistema estão entre os que não largam esses benefícios de jeito nenhum.
A bolsa caiu? No meu caso, penso logo na bolsa em que levo a marmita diária. Minha marmita é preparada com muito amor e carinho – e por isso traz o mais raro dos cardápios. Eis a minha bolsa de valores. O resto – bem pouquinho – guardo na caderneta de poupança. (Se o banco não quebrar, muito obrigado.)
O pó, de certa forma, somos nós. Todo paraíso adâmico, a começar por Adão, nasceu do pó molhado. E o que é a Terra senão um amontoado de poeira vagando no espaço?
“Somos todos filhos do mesmo pote de estrelas”, dizia São Francisco de Assis. E ele estava certo, como veio a comprovar a ciência, séculos depois. O Sol, estrela mais próxima de nós, é uma anã amarela na escala astronômica. Produz apenas hidrogênio e um pouco de hélio. Todos os outros elementos que nos constituem vieram das estrelas noturnas. Somos pó de estrelas. A Via Láctea deu nossa primeira amamentação.
No Sabá, há uma antiga tradição judaica de não acender a luz de casa antes que apareçam três estrelas – acabei de ler isso num conto de Isaac Bashevis Singer. Talvez seja bom que façamos isso todas as noites, não para economizar eletricidade, mas para pensar um pouco no pó que nos recobre, nos envolve, nos cerca e nos define.
Jorge Luis Borges acreditava que o nome Adão significa “terra vermelha”. Quando penso no pó, evoco os antigos – em especial as donas de casa – que sofreram os rigores da poeira e do barro. Poeira e barro: irmãos gêmeos a recobrir a pele dos antepassados, hoje eles também transformados em pó e memória.
E o que são estas letras que você lê, senão uma forma específica de pó e memória? Pergunte ao pó. E desculpe qualquer coisa.

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Enviado por Paulo Briguet, 02/10/2008 às 10:57

Toda nudez será suportada


Sonho sempre – e aqui não vai nenhuma pretensão de originalidade – que estou pelado na rua. Uma vez, há muito tempo, cheguei perto de concretizar o pesadelo, mas não fiquei completamente nu, nem estava na via pública.
Foi simples. Durante uma festinha, na época da república, surgi apenas de camisa e cueca. Não houve grande escândalo. Afinal, eu estava em minha própria casa; só havia gente conhecida (todos maiores de idade, embora não muito); e a cueca era samba-canção. Na maior parte do tempo fiquei protegido pela porta da geladeira, o que simultaneamente me franqueava acesso às garrafas de cerveja. O resultado foi uma gripe. Uma gripe e uma ressaca.
Muita besteira já fiz na vida, em especial na vida de estudante universitário, mas certamente não pensei, naquela festa de 1991, em considerar meu aparecimento de cueca samba-canção como atitude artística. Não havia estética no fato (muito ao contrário!); como também não houve intenção cênico-teatral por parte do meu primo Renatão, hoje um respeitável pai de família, na manhã em que ele decidiu ir à padaria de pijama.
Rememoro essas passagens a propósito de uma notícia que escutei nesta semana. Disseram-me que há um grupo de atores ensaiando pelados no campus da UEL.
Não me escandalizo com o fato. Nudez não ameaça ninguém atualmente; o mal tem manifestações muito piores do que a exposição em pêlo de uns gatos-pingados. Muito ao contrário: a nudez humana, na esmagadora maioria dos casos, me parece mais ridícula do que perigosa. Vejam as fotos de praias de nudismo e me digam se estou errado. Quando alguém – uma participante do Big Brother, por exemplo – tem beleza corporal suficiente para que outros queiram apreciar sua nudez, costuma cobrar caro por isso. E, mesmo assim, o operador de Photoshop e a equipe de maquiadores tornam-se imprescindíveis para camuflar as imperfeições comuns à espécie.
Transformar o evento particular em espetáculo público já foi uma novidade artística – até meados do século anterior. A nudez teatral podia até ser um escândalo nos anos 1960; hoje é pinto (no sentido mais ingênuo da palavra). O diretor José Celso Martinez Corrêa já colocou tantos peladões em cena que alguém já inventou a expressão “mais inútil que figurino em peça do Zé Celso”. Ficar todo mundo nu em peça de teatro é tão moderno, vanguardista e original quanto expor urinol em galeria de arte.
A nudez à luz do dia, hoje em dia, é apenas mais um evento de vergonha alheia entre milhares de outros. Talvez tenha até seus efeitos pedagógicos (“Eu não quero ser assim quando eu crescer, não, mãe!”) Ninguém paga impostos para ver isso ser feito em universidade pública, mas e daí? Há grandes e pequenas vergonhas. Esta é menorzinha.
Vai uma enxada aí?

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Enviado por Paulo Briguet, 26/09/2008 às 12:11

Tia que é tia

As irmãs de nossos pais e mães costumam ter uma sabedoria toda particular – uma sabedoria que nasce da concisão. Minha teoria é a seguinte: como passam pouco tempo com os sobrinhos, as tias precisam transmitir rapidamente tudo aquilo que a experiência lhes ensinou. E o fazem através dos ditados, entre um café e um pedaço de bolo.
Agora que sou tio, quero transmitir um pouco desse conhecimento à minha sobrinha Liz, que ainda não sabe ler, mas já está falando mamãe. (Encontrei no Orkut.)
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=3510088
Como sabe toda tia, pardal que anda com morcego acorda de cabeça para baixo. Galinha que acompanha pato morre afogada. E, em terra de sapo, mosca não dá rasante.
Quem mora em submarino não dorme de janela aberta. Para o cara que está se afogando, jacaré é tronco. Por falar em jacaré, em rio que tem piranha, ele nada de costas. Mas deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar!
Tia que é tia não é pipoca, mas vive dando seus pulinhos. Para ela, sempre é melhor pingar do que secar. E quem não concorda está mais por fora que dedão de franciscano.
Quer moleza? Chama o Geléia! Quer mais moleza? Senta no pudim. Comigo não, violão! Se vira, Praxedes! Quem pode, pode; quem não pode, se sacode.
Tia é assim: a cada enxadada, uma minhoca. Tia é melhor que dinheiro achado. Para ela, quem tem filho grande é baleia. E o mesmo vale para sobrinho.
Tia sabe que em briga de saci não tem rasteira; que em casa de pobre arco-íris é preto e branco; e que esperto mesmo é o Curupira – só faz gol de calcanhar.
Se ferradura desse sorte, cavalo não puxava carroça, não é mesmo? Tia sempre tem essas tiradas, que vêm das épocas imemoriais – do tempo em que tamanduá comia formiga de canudinho.
E é favor respeitar a tia. Caso contrário, ela dirá para sua mãe que você é mais grosso que dedo destroncado. Não fique se fazendo de vesgo só para mamar em duas tetas. Você não engana nem o Peixoto.
Se vira, Praxedes! Quer moleza? Chama o Geléia.

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Enviado por Paulo Briguet, 24/09/2008 às 13:21

O hotel dos homens tristes

Muitos hóspedes chegam em carros brancos dotados de sirene. Outros vêm a pé, de ônibus, de táxi, sobre rodas ou muletas. Quase todos se amparam: os maridos nas mulheres, as mulheres nos maridos, os pais nos filhos, os filhos nos pais.

Estranha arquitetura, a deste hotel. Começou como simples casa de madeira, depois demolida para dar lugar a um prédio de paredes grossas e pé-direito alto. As alas foram sendo construídas em torno e acima das edificações mais antigas. Há departamentos modernos e assépticos, seguidos por arcadas e janelas do tempo do Onça. As árvores nos observam lá fora, por entre a parede ambígua dos elementos vazados. A capela fica na frente da lanchonete.

Aqui é a sala de espera. Na parede, um cartaz: “Previna-se contra o câncer”. A máquina de café quebrou; um funcionário, muito educado, vem para tentar repará-la. A tia de óculos ouve não sei o quê por um walkman. Ao mesmo tempo, folheia uma revista. O título de um artigo: “A vida é feita de alegrias”. No jornal, as bolsas caem. E eu com as bolsas? Leio os “Pensamentos” de Pascal. Não avanço além de três páginas. Guardo o livro na bolsa preta.

Há sempre um chato de plantão. Alguém reclama ostensivamente da máquina de café; é um homem de meia-idade, inquieto e falante. O filho está na sala de cirurgia. Tomo um copo de água. O médico dissera: “Jejum absoluto por 24 horas”. Sinto-me culpado por estar saudável (ao menos corporalmente) neste lugar.

Um velhinho, paciente do SUS, fica na porta da ala de radiologia. Quando chega um paciente de convênio, ele diz: “Tá cheio aí. Não pode entrar mais ninguém”. É um porteiro informal, um porteiro ad hoc. Ocorre-me a dúvida: em que esmeril se afia o bisturi? Talvez o chato de plantão seja eu mesmo.

Espera, espera, espera. A vida não é diferente. O CD da tia de óculos chegou ao fim; ou ela se cansou de escutar. Há adolescentes sem cabelo. “Setor de cobaltoterapia – Inaugurado em 12 de novembro de 1993”, diz a placa. O garoto que faz tratamento tem 15 anos. Parece um touro. É bem mais alto que a mãe. Na fileira de pacientes sentados, uma curiosa exposição de desenhos cubistas: formas geométricas desenhadas no rosto e no peito. Espera, espera, espera.

No corredor, o barulho das macas com destino ao centro cirúrgico. As macas são os carros alegóricos deste carnaval cubista. Uma delas levará quem você ama. É um aeroporto de angústias: há macas sem pacientes; há pacientes sem macas; e há pacientes sem pacientes.

O Purgatório tem anjos? Aqui há os homens e mulheres de branco. De repente, o medo: e se um dia os anjos da guarda ficarem todos doentes?

Um paciente com os olhos esbugalhados se ampara na mulher. Neste hotel, os hóspedes não decidem a hora do check-out. Escrever sobre isso é minha maneira de esperar a volta de quem eu amo; é meu pensamento direcionado ao Criador de todas as coisas.

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Enviado por Paulo Briguet, 11/09/2008 às 18:24

Cuidado com o homem

O homem é o único animal que dá descarga. Mas também é o único animal que se esquece de fazer isso (em casa e na política).

*****

Em toda a imensidão da natureza, o homem é o único animal que se candidata a vereador. E o único que vende o voto.

*****

Aliás, se votar é tão bom, como diz a propaganda, por que não é facultativo?

*****

Cuidado com o homem que não se angustia. O homem digno do nome sabe que a vida tem muito sofrimento. Sabe que um gesto pode colocar tudo a perder. Um gesto – às vezes seguido pela tecla CONFIRMA.

*****

Cuidado com o homem que não ri; principalmente com o homem que não ri de si mesmo.


*****

Cuidado, também, com o homem que só ri. Perigoso é o homem que leva tudo a sério; deletério é o que não leva nada a sério.

*****

Cuidado com o homem que promete governar todo mundo. Geralmente esse homem é ingovernável.

*****

Cuidado com quem diz estar no coração do povo. O povo não tem coração; quem tem coração é o indivíduo. Os grandes crimes da história foram cometidos quando instintos pessoais foram transformados em paixões públicas. Aceitar que alguém vive no coração do povo é começar a admitir que existem inimigos do povo.

*****

Cuidado com quem acredita muito em si mesmo e não teme a aproximação do mal.

*****

Cuidado com o homem cujo método é a perseguição. Ou você acabará perseguido.

*****

Cuidado com quem mistura as noções de bem e mal. Lembre-se: o diabo é um relativista.

*****

Cuidado com quem se acha imune ao pecado. Mais cuidado ainda com quem não acredita em pecado. Pois o pecado é igual ao mar: quer afogar quem tem medo dele; quem não tem medo, ele já afogou.

*****

Cuidado com o homem que promete cuidar da cidade, mas não tem cuidado com os ouvidos alheios.

*****

Cuidado com o homem que promete cuidar de você.

******

Cuidado com o homem: o frasco de veneno pode estar no café pequeno.

*****

Cuidado com o homem que diz ter pena (pública e barulhenta), mas não tem compaixão (íntima e silenciosa).

*****

Certos homens públicos deveriam pagar taxa de insalubridade e periculosidade.

*****

As propagandas eleitorais deveriam ser acompanhadas pela seguinte advertência: DESCULPE O TRANSTORNO.

*****

Bem-aventurados sejam os cuidadosos. E os outros – que Deus tenha piedade deles.

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Enviado por Paulo Briguet, 05/09/2008 às 11:58

Cala a boca!


Eu estava de plantão na casa do dr. Bahas. Eram três da manhã quando chegaram os homens. Pela guarita, vi que eram carros de polícia.
Mas bandido não vive se fingindo de polícia pra assaltar? Como é que eu podia saber que os caras eram da PF mesmo? Aquele publicitário corintiano foi seqüestrado assim, lembra?
Antes de eu dizer qualquer coisa, o sujeito gritou:
– Cala a boca! Sou delegado da Polícia Federal! Abre esse portão, senão eu te prendo!
Desci da guarita para pedir o documento do homem. Quando vi, já me botaram algema e empurraram pra dentro da viatura. Passou até na televisão.
Depois, arranjei emprego de porteiro de boate. Minha função era só deixar entrar quem estivesse com ingresso. Um sujeito com cara de poucos amigos ia entrando sem pagar. Perguntei:
– Cadê o ingresso?
– Tá aqui, ó.
E meteu um revólver no meu rosto.
Eu não sabia que o cara era da polícia. Acabei preso por desacato.
Sempre fui um cara religioso; resolvi trabalhar num lugar mais calmo. Virei sacristão. Na hora em que o padre ia consagrar o vinho, um bêbado se levantou no meio dos fiéis e disse:
– Ô, padreco! Me dá esse vinho que ele é meu!
Levantou-se e tentou tirar o cálice das mãos do padre. Eu impedi. O cara me deu voz de prisão na frente do altar. Na delegacia, fui para o xilindró; o delegado plantonista não quis ouvir o padre, nem os fiéis. Também não fizeram o teste do bafômetro no policial. Não tinham o aparelho.
Sempre gostei de esportes; virei juiz de futebol amador. Aos 2 minutos do primeiro tempo, um zagueiro parrudo deu um carrinho homicida no atacante. Marquei a falta e já ia tirando o cartão vermelho do bolso, quando meu apito foi subitamente confrontado por uma pistola.
– Tá querendo me expulsar? Cê sabe com quem tá falando? Têje preso.
Fim de partida.
Arrumei um emprego de músico. Tocava violão e cantava num barzinho da zona norte. Certa noite, um homem chegou acompanhado de uma loira oxigenada.
O cara se levantou e mandou que eu tocasse “Boate Azul”. Pedi desculpas:
– É que eu acabei de tocar essa música, antes de o senhor chegar. Vai demorar um pouco.
Foi quando vi o cano do revólver ao lado do microfone. Cantei “Boate Azul”, mas estava nervoso e errei a letra. Cadeia, de novo.
Passei algum tempo fazendo bicos, vivendo de seguro-desemprego. Mas, depois de muita insistência, arrumei emprego de vigia em banco. Minha função era impedir a entrada de pessoas armadas na agência.
Um dia, um cara chegou armado e disse que era policial civil. Mostrou o documento de identidade, que estava rasurado. Mas eu não queria encrenca. Deixei o cara entrar.
Foi quando senti o cano da arma na minha testa. Era um assaltante.

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Enviado por Paulo Briguet, 03/09/2008 às 13:18

Saudades do MacGyver


Bom mesmo era o MacGyver. Lembra? Aquele do seriado “Profissão: Perigo”. Passou nos anos 80 e 90.
MacGyver era agente secreto, mas não usava armas de fogo porque tinha trauma de infância. Para compensar, desenvolveu uma incrível habilidade naquilo que nós brasileiros chamamos de gambiarra. Derrubava portas de aço com bombas de chiclete de bola; desmontava explosivos usando palito de dente; evitava acidentes nucleares com barras de chocolate. E tudo isso levando no bolso apenas um canivete uma fita adesiva. Era um gênio da gambiarrice.
Não sei se vocês perceberam, mas estamos todos grampeados. O país inteiro, sem exceção. Começaram grampeando o telefone de alguns suspeitos de crimes; depois, grampearam os suspeitos de serem suspeitos; depois, grampearam os suspeitos de grampear; depois, grampearam os suspeitos de grampear os grampeadores; por fim, para simplificar, grampearam todo mundo. Eu, você, o seu vizinho, o dono da padaria, a tia do café, o moço da farmácia – todos fazemos parte de um imenso programa “Fala que eu te escuto”. Até quando você pede uma pizza de calabresa, pode estar certo de que há algum espião ouvindo a conversa. E tudo poderá ser usado contra você no tribunal – já que estamos falando de seriados de TV.
Na vida, há três tipos de coisas: boas, más e neutras. A maioria esmagadora pertence ao terceiro grupo. Por isso, escutar conversas telefônicas alheias deve ser mais chato que dançar com a irmã, mais chato que festival de reggae, mais chato que filme do Glauber Rocha, mais chato que horário eleitoral com “propostas para a cidade”. Imagine a quantidade de conversa fiada que esses caras precisam escutar antes de pegar alguma frase relevante...
Hoje em dia, grampo é muito fácil. Não é preciso mais de um MacGyver para escutar a conversa alheia. Um araponga de quinta categoria dá conta do serviço. Tem até grampo ambiental, ecológico.
Mas eu gostaria de convidar o MacGyver para sacanear os bisbilhoteiros. Um dispositivo antigrampo do MacGyver poderia acionar um disco da Cláudia Leitte – ou do Skank – sempre que alguém tentasse gravar uma conversa alheia. Ou – melhor ainda! – um jingle de campanha londrinense.
Por falar em jingle, eu gostaria muito que o MacGyver encontrasse uma forma de silenciar os carros de som de candidatos a prefeito e vereador.
E quem sabe um dia, no futuro, de tanto escutar as conversas alheias, os políticos entendam que o que mais precisamos é menos governo, menos prefeitura, menos impostos e menos perturbação. Ouviram bem?

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Enviado por Paulo Briguet, 29/08/2008 às 17:06

A moeda no chão


Achei a moeda na rua
e ela disse-me assim:

“Não penses que eu sou tua,
ô cronista chinfrim!
Ouve antes minha história
do começo até o fim.

Nasci no Banco Central,
depois fui de mão em mão.
E o que recebi em troco?
Nem um mísero tostão.

Dizem que sou duas caras,
me acusam de todo mal.
Até ganhei o apelido
(injusto) de vil metal.

Mas, cara, só tenho uma
– e nunca foi feita de pau.
Minha coroa é de lata,
mas meu nome é real.

Alguns dizem que estou
no mais fundo do poço:
mas bem que eles gostariam
de me acumular no bolso.

Sem amigos, sem parentes,
sem salário, sem nada:
desde criança fui órfã
e desde sempre, cunhada.

Na vida, muitas tristezas,
desilusões, dós e dores:
passei até por desvios
na Câmara de Vereadores.

Já fui antes reluzente;
obscura, fui depois
(quando contabilizada
na farra do caixa 2).

Já freqüentei gabinetes,
bordéis, boates, esquinas:
sei todo zoneamento
das polpudas propinas.

Já fui de pobres e ricos,
já disputei eleição.
Acabei lá no Gaeco,
como parte de extorsão.

Ah, se eu pudesse gritar
tudo aquilo que lembro:
haveria só escândalo
de janeiro a dezembro.

Mas é com a alma lavada
que hoje em dia eu digo:
estive bem mais segura
nas mãos sujas do mendigo.

Agora, não me carregues:
meu valor ficou datado.
Até me trocam por bala
no caixa do supermercado.

De todas essas agruras,
a pior é a inflação.
Por ela em breve estarei
bem fora de circulação.

Aqui nesta pobre calçada
tive a penúltima queda.
A última, volta ao lar,
é na Casa de Moeda”.

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Enviado por Paulo Briguet, 21/08/2008 às 10:36

Não votem em mim


Ontem tive um pesadelo. Sonhei que era candidato a vereador. Poderia sonhar que era imperador romano; jogador de basquete nos Estados Unidos; ator de Hollywood; fotógrafo da Victoria’s Secret; Dorival Caimmy aos 40 anos; produtor de vinho na Califórnia; salva-vidas na Riviera francesa; restaurador de obras no Louvre... Mas não: fui sonhar que era candidato a vereador em Londrina!
No sonho, abri o jornal e meu nome estava lá, na lista de candidatos. Nome, número e legenda. Não havia como esconder o fato. Lembro-me da última cena do sonho: eu pegava um táxi rumo ao Fórum, na tentativa de impugnar minha própria candidatura. Acordei antes da impugnação.
Meu partido não era nada recomendável. Candidato, eu teria algumas dezenas de votos de amigos e parentes – poucos para me eleger, mas suficientes para ajudar a eleger algum vigarista do partido.
Seria o fundo do poço.
Imagine ter que pedir votos! Não poder falar exatamente aquilo que penso! Dar tapinhas nas costas! Agüentar a chatice de reuniões e sessões! Fazer parte de comissão disto e daquilo! Suportar a companhia de vocês-podem-imaginar-quem! Ser apontado na rua: “Olha lá, aquele é vereador! Sabe do último escândalo?”
Nunca. Nunquinha. Nem louco. Nem morto.
Ontem estive observando a propaganda eleitoral dos vereadores. Há os que se identificam pelo local de trabalho: Zezinho do Poço Artesiano, Claudião da Funilaria, Roberto do Açougue, Fernandinho da Corretora de Seguros, Cidinha da Farmácia. Uma segunda categoria prefere mencionar o bairro de origem: João do Virmond, Estelinha da Vila Santa Teresinha, Onofre do Maria Cecília, Sinval do Franciscato. Outros se apresentam por uma parte do corpo: Perna, Barriga, Cabeça, Bochecha, Careca, Orelha. Um quarto grupo nos brinda com apelidos: Zoiudo, Tá-Certo, Bisnaga, Xaropão, Xonado, Meio-Quilo, Vassourinha, Frango Frito, Salsicha. (Todos esses nomes são inventados, mas guardam incrível semelhança com os verdadeiros.)
E há os que aproveitam o curto tempo de propaganda – não mais que alguns segundos – para fazer rima. É um tal de rimar ato com 444, ação com renovação, certo com Gilberto...
Ninguém rima gel com bordel. Por falar nisso, acho que minha candidatura, no pesadelo, tinha slogan: “Paulo Briguet, esse briga por você!” Que vergonha.
Mas não tem jeito: vamos ter que escolher alguém entre os atuais candidatos. Quem acha que todos são ruins vai ter que agüentar os piores ainda.
Termino esta crônica pedindo aos meus sete leitores (e não eleitores): se um dia, daqui a muitos anos, eu estiver gagá a ponto de ser candidato a vereador, mostrem-me o xerox desta página e, por piedade, NÃO VOTEM EM MIM!

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Enviado por Paulo Briguet, 18/08/2008 às 11:40

Oração de um homem que não sabe rezar

Querida Madre Leônia:
Vim aqui rezar (eu não sei rezar) por meu pai e minha mãe, para que vivam mais 30 anos, para que não sofram, para que não se angustiem. Vim aqui rezar (mesmo sem saber rezar) pelas crianças perdidas, pelos cães sem dono, pelo velhinho que era jardineiro e hoje vende capachos no sinal. Pelos adolescentes que não sabem o que fazer nas tardes de domingo e se tornam tão chatos quando em grupo, tão chatos.
Vim aqui rezar (mas eu não sei rezar), Madre Leônia, diante de teu túmulo, pela alma de minha Vó Maria, que se estivesse viva completaria 90 anos em 30 de agosto vindouro. Vim aqui rezar (e o ignoro) pelos que ainda usam a palavra “vindouro”.
Vim aqui rezar (não aprendi a rezar) pelas casas que só existem na memória. Pelo rapaz que levou um tombo em Pequim. Pela moça que perdeu a vara na hora de saltar. Pelo cavalo e o cavaleiro que caíram juntos.
Rezar, Madre Leônia: é para isso que eu vim (embora não saiba). Para que eu descubra mais amor dentro do amor que já é tanto. Para que o pecado não bata à minha porta com sua tempestade de demônios. Para que eu compreenda, querida Madre Leônia, aquilo que, por ser burro, não compreendi até agora. Para que aprenda aquilo que não aprendi. Para que eu segure sempre a cavalaria dos meus ódios.
Vim aqui rezar (mesmo não sabendo), Madre Leônia, se me permite, pelos bares fechados, mortos ou vazios. Pelas mentes que se encharcaram de pinga. Pelos mendigos que desaprenderam a falar e não tomam banho há 14 anos. Pelos candidatos a vereador que não sabem nem pronunciar uma palavra, e portanto não sabem mentir, e portanto não devem conseguir mais de 10 votos na próxima eleição.
Vim aqui rezar (e só sei que não sei fazê-lo) pelas professoras que ganham pouco e trabalham muito, mesmo sendo ignoradas pelos alunos; pelos gols perdidos nos acréscimos do juiz; pelos goleiros vazados por atacantes em impedimento; pela alma do Barbosa, goleiro do Brasil na Copa de 1950.
Vim aqui rezar (não sei, nem sei se saberei) pelo namorado que tem chulé e não sabe; pela moça que tem mau hálito e não sabe; pela dona-de-casa que é irritante e não sabe – para que saibam, Madre Leônia, para que saibam!
Vim aqui rezar (sem sabê-lo) pelo poeta que escreve mal, e mesmo assim tem o sentimento da poesia. Pelos últimos colocados nas provas de natação. Pelos fracassados de todo o globo terrestre – continentes e mares – vim rezar. Pelos que morreram afogados no Oceano Pacífico, esse imenso vazio de água deixado pela Lua ao se separar da Terra.
Vim rezar (mesmo inepto), com minha língua pesada, Madre Leônia, pelos que pagam impostos até maio e nada recebem em troca. Pelos que choram no cantinho. Pelos que abaixam a cabeça e andam de ombros caídos.
Por Judas, o obscuro, de Thomas Hardy, se é que existiu alguém como ele (e acho que existiu). Pelos que tentaram dizer as últimas palavras e não conseguiram. Por todos os apartados, anônimos e infelizes do mundo. Pelos felizes, realizados e autoconfiantes. Pelos primeiros, pelos últimos. Pelas almas do Purgatório e pelo Limbo que não existe nem nunca existiu. Eu rezo, posto que não o saiba, Madre Lêonia, aqui diante de teu túmulo, nesta avenida que tem o teu nome, nesta hora que também é a tua hora. Ensina-me a rezar, Madre Leônia – ou que eu me cale para sempre.

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Enviado por Paulo Briguet, 13/08/2008 às 12:36

Santa Paciência


Quando Deus perguntou a Salomão o que ele mais desejava, a resposta foi: “Sabedoria”. Se o Criador um dia me conceder a honra da mesma pergunta, só pedirei paciência.
São Paulo dizia que as três coisas mais importantes são fé, esperança e amor. Este cronista – que é Paulo, mas não é santo – acredita na paciência como o primeiro passo para se chegar à tríade paulina. Talvez até mais do que isso: pois quem tem a verdadeira paciência necessariamente já tem fé e esperança. E o amor começa com um ato de paciência. Todo amor é paciente, já dizia São Paulo. Sem paciência não há amor. O amor sabe esperar.
Paciência, ao contrário do que muitos acham, não é sinônimo de passividade. Quem é paciente sabe agir. E só é paciente porque acredita naquilo que está fazendo. A paciência é a qualidade daqueles que fazem e esperam ao mesmo tempo.
A paciência é uma virtude de pescadores. Por isso, Jesus procurou discípulos entre a categoria. E não deu os peixes: ensinou-os a pescar. Deus, ensinai-me a ser paciente.
Sem paciência, ninguém lê a Bíblia, Os Sertões, A Divina Comédia, Guerra e Paz ou Crime e Castigo. Nem mesmo este jornal pode ser lido sem paciência. Nem uma lista de supermercado. Nem um e-mail. Sem paciência, nenhuma palavra seria escrita. Nem mesmo as línguas existiriam.
A paciência é prima da aceitação e da coragem. É a combinação dessas duas qualidades que parecem opostas. Para aceitar a verdade, é preciso coragem. Para ter coragem, é preciso aceitar a verdade. A paciência está no meio do caminho.
Paciência não é submissão, não é omissão, não é fuga. Paciência é saber o tempo das coisas. É não gastar tempo e trabalho com inutilidades. O homem paciente vai ao principal. E espera.
É preciso paciência com o celular que toca na hora errada – se for importante, vão ligar de novo. É preciso paciência com o locutor que festeja a medalha de bronze como se fosse um recorde mundial. É preciso paciência para suportar o alarme que disparou (e ninguém encontra o dono desse carro). É preciso paciência para agüentar 20 anos como refém do PT e de Belinati (e eles estão aí de novo!).
É preciso paciência. Na entrada e na saída. Dia e noite. Paciência acordado, paciência dormindo. Paciência com quem não tem paciência. Paciência com a buzina do motorista apressado. Paciência de Jó, paciência de Jacó, paciência de um ouvinte eterno do Skank e da Cláudia Leitte.
E só fato de você ter lido esta crônica até o final prova que você é uma pessoa paciente. Do contrário, paciência.

(Dedico esta crônica ao meu avô Briguet, que hoje faria 98 anos, gostava de pescar e era a paciência em pessoa.)

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Enviado por Paulo Briguet, 08/08/2008 às 11:54

Conheço um homem


Conheço um homem que lê muito. Se lhe tirassem o jornal ou o livro por um só dia, seria o mesmo que deixá-lo sem almoçar. Atualmente está lendo as crônicas de Manuel Bandeira, poeta que admira e de quem sabe vários poemas, de memória.
Conheço um homem que fuma há 50 anos, mas tem os pulmões estranhamente mais limpos do que a medicina esperaria. Milagre? Acho que não. Ele caminha todas as tardes, exceto quando chove. E isso lhe deve dar algum fôlego.
Conheço um homem que me ensinou a nadar e a jogar xadrez, mas não conseguiu me ensinar a dirigir. E todas as três coisas ele faz melhor do que eu. Conheço um homem que já escrevia antes do meu nascimento; e também isso ele faz melhor.
Conheço um homem que tem certeza de que vai morrer. Todos nós estamos certos disso, mas ele tem, digamos, uma convivência mais próxima com a indesejada das gentes. Talvez porque, na juventude, tenha lido muito os existencialistas. Mas sei que ele vai viver bastante tempo – mais até que o Manuel Bandeira.
Conheço um homem que cuida de sua mulher de um modo não menos que comovente – e ela também cuida dele. Têm lá suas manias e diferenças, é claro. Mas estão juntos há 40 anos – e é quase impossível pensar no homem sem pensar na mulher. Sei que ele disse a ela, outro dia: “Sem você, eu já teria ido há muito tempo”.
Conheço um homem que se preocupa. Com a vida, com a morte, com as contas, com os seguros, com os prazos, com os remédios, com os parentes, com os amigos, com a política, com o país, com a história, com o mundo. As coisas que hoje nos angustiam já preocuparam o homem tempos atrás.
Conheço um homem que se preocupa até com a rotina do caixa de supermercado, da balconista da loja, do frentista do posto. Sempre que pode, lhes dá uma dica de filme em DVD. “Esse pessoal trabalha muito, precisa de um elogio, de uma palavra simpática.”
Por falar em filmes, conheço um homem que faz listas. De filmes elogiados pela crítica; de remédios que devem ser tomados (dias, horários, posologias); de cartas que escreveu ao jornal; de coisas sempre urgentes para fazer. Conheço um homem que torce pro Palmeiras, o que acabou me tornando palmeirense também. Não é muito fanático, não. Mas sabe sempre os resultados. E me liga de manhã para comentar o último jogo.
Conheço um homem que não se dá muito bem com a tecnologia moderna. Tem que pedir para a mulher encontrar as crônicas na internet. Apesar de fazer muito bem todas as operações do banco eletrônico, não aprendeu a guardar telefones na memória do celular. Fiquei surpreso quando ele disse que o telefone da mulher estava no celular. Fui ver, estava mesmo. Colado com fita adesiva.
Conheço um homem que ao mesmo tempo é o mais previsível e o mais surpreendente dos homens. Seria desnecessário dizer quem ele é, mas eu digo: esse homem é meu pai.

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Enviado por Paulo Briguet, 06/08/2008 às 13:21

Omelete


Às vezes eu acho que o pessoal está desaprendendo a ser feliz.
Na segunda-feira, cheguei em casa e a TV a cabo estava fora do ar. Foi um Deus-nos-acuda. Todo mundo queria assistir ao Jornal Nacional e à novela das oito, mas, sem TV a cabo, nada feito. Desaprendemos a ver televisão à maneira antiga.
Liguei para o porteiro, achando que o problema era só no meu apartamento. Não era. A pane deve ter atingido todo o bairro. Na central de atendimento da operadora, ninguém atendia – só aquela musiquinha chata.
Você queria ver a novela. Fomos ao computador, na esperança de que fosse transmitida on-line. Descobrimos que não é. Resolvi tomar banho. Quando saí, a TV já tinha voltado ao ar. Vimos a chatinha da personagem da Mariana Ximenes renegar a mãe adotiva, Cláudia Raia.
Dormi e sonhei que havia uma pane geral dos computadores. Arranjei, não sei onde, uma máquina Olivetti. E comecei a escrever. Os mais jovens ficaram admirados: “Você sabe usar máquina de escrever! É tão primitivo.”
Pois é. Desaprendemos a catar milho em máquina de escrever. Mas eu lembro muito bem da noite que eu passei datilografando o trabalho do professor Eduardo Judas Barros (falecido agora em julho; não acreditei quando recebi a notícia). Quando escrevi a última frase do trabalho – depois de usar quase um litro de Errorex –, o Sol estava nascendo na Rua Humaitá.
Ontem, a caminho do jornal, descobri que meu celular estava sem bateria. Já me especializei no esporte de não atender ao celular; afinal, ainda me recordo do tempo em que vivíamos muito bem sem ele. Quero que o celular seja meu escravo, e não o contrário.
Mas ninguém pense que eu sou contra a tecnologia. Nada disso. Sou muito favorável a tudo que melhore a vida. Mas tem que melhorar.
Recentemente, li um livro em que o personagem principal vive por 11 anos isolado numa casa de campo. De repente, decide fazer uma visita à cidade grande. Tem uma grande surpresa ao notar que as pessoas estão falando sozinhas na rua! É o celular.
Celular é muito bom, mas eu me lembro do tempo em que não precisava dele para falar sozinho na rua. Sempre tive esse hábito. E nem precisava recarregar a bateria.
Para que eu me sentisse feliz, a TV a cabo nem precisava ter voltado ao ar. Só o fato de saborear aquela omelete que você preparou, junto com arroz e salada, já me transformou no homem mais afortunado do Brasil. E eu com a Mariana Ximenes? Tenho você. E a louça é minha.

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Enviado por Paulo Briguet, 05/08/2008 às 10:12

Soljenítsin

“Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”, disse Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799). Se pensarmos nos regimes totalitários do século 20, a frase do cientista e escritor alemão ganha sentido profético.
O escritor russo Alexander Soljenítsin, que morreu neste domingo em Moscou, aos 89 anos, nunca foi um moderado – e jamais pôde ser acusado de indiferença. Graças a ele, em obras monumentais que combinavam memória, ficção e crítica, o mundo conheceu em detalhes os horrores da ditadura de Joseph Stálin (1924-1953).
Se Soljenítsin não tivesse escrito “Um dia na vida de Ivan Denisovich” (1962), “O primeiro círculo” (1968), “Pavilhão de cancerosos” (1968) e “Arquipélago Gulag” (1973-1978), teríamos conhecido os horrores do comunismo, mas talvez não com a mesma riqueza de detalhes, com a mesma contundência de imagens, com a mesma força de condenação. Soljenítsin não foi o único autor russo a denunciar o sistema comunista (não nos esqueçamos de Joseph Brodsky, Anna Akhmátova e Nadezhda Mandelstam), mas tornou-se um símbolo de resistência. A grande obra de arte pode ser devastadora; e os tiranos sabem disso.
Soljenítsin foi uma espécie de milagre. Formou-se em matemática e lutou na infantaria soviética durante a Segunda Guerra. Em 1945, após o final do conflito, escreveu uma carta em que fazia críticas a Stálin. A correspondência foi interceptada. Resultado: Soljenítsin passou dez anos preso como “inimigo do povo”; comeu o pão que o diabo amassou nos campos de trabalho forçado de Stálin, conhecidos por Gulag (sigla russa para Direção Geral dos Campos de Trabalho Coletivo). Soljenítsin sobreviveu a tudo: fome, frio, perseguição, maus-tratos, torturas e um câncer de estômago.
Com a morte de Stálin, em 1953, o poder foi assumido por Nikita Kruschev, antigo aliado do tirano. Em 1956, Kruschev iniciou um tímido processo de “desestalinização”. Nesse contexto, surgiu a novela “Um dia na vida de Ivan Denisovich”, que relatava os sofrimentos de um prisioneiro soviético, homem comum molestado pelas engrenagens totalitárias. O livro de Soljenítsin acabou por ser publicado em 1962.
A sorte de Soljenítsin durou pouco. Em 1964, Brejnev e Kossigin derrubaram Kruschev e o cerco ao escritor dissidente recomeçou. Em 1970, ele ganhou o Nobel de Literatura, mas foi desaconselhado a viajar para Estocolmo e receber o prêmio pessoalmente. Em 1974, Soljenítsin foi expulso do território soviético. Exilou-se em Vermont (EUA). Continuou escrevendo compulsivamente, movido por um sentimento de dever – sua obsessão era dizer sempre toda a verdade. Voltou à Rússia em 1994. Foi polêmico até o fim. Era um feroz anticomunista, mas também criticou asperamente o modo de vida ocidental. Deixa um legado de inconformismo e paixão moral digno dos grandes escritores russos do século 19. “A verdadeira obra de arte irradia uma força de persuasão absolutamente irrefutável, que obriga até o coração mais endurecido a se render.”

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Enviado por Paulo Briguet, 04/08/2008 às 13:11

O carregador das pedras

Vi um homem carregando um saco de pedras. Ofereci ajuda. Ele agradeceu e recusou:
– Já terminei o serviço.
Limpou o suor da testa com a manga da camisa:
– Este saco tem 50 pedras e é pesado. Agora, imagine o peso de todas as pedras do mundo. Ele carrega.
A vida está repleta dessas visões de Deus. Geralmente, estão ligadas à natureza: Ele carrega todas as pedras; sopra todos os ventos; acende todas as estrelas; move todos os mares e montanhas.
Vó Maria acreditava que o Céu ficava no céu. Revelou surpresa quando eu disse que os santos não moravam nas nuvens (pelo menos, não nas nuvens observáveis).
Às vezes eu entrava, pé ante pé, no quarto de Maria, para pegar alguma coisa no armário. Pensava que ela estivesse dormindo, mas não. De repente, escutava:
– Bzzz, bzzz, bzzz, bzzzz.
Era Maria rezando.
É claro que existem visões de Deus mais sutis e complexas que a do homem que carregava pedras ou da Vó Maria. Encontramo-las em São Paulo, Tertuliano, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Sóror Juana Inés de La Cruz, Santa Teresa de Ávila: escritores que oferecem sublimes conceitos do Ser e definem a existência de Deus como algo superior à própria natureza, que existiu e existirá mesmo sem ela, pairando sobre as águas.
A graça está no meio Caminho de Damasco entre a simplicidade da crença popular e a sutileza dos pensadores e poetas. No simples e no complexo. Tal como a física moderna, a fé trabalha com aquilo que é muito grande e aquilo que é muito pequeno: os átomos e as galáxias.
Sim, Vó Maria estava certa – e Santo Agostinho também. Uns procuram o Céu no céu; outros buscam o céu no Céu. Quem tiver olhos de ver, verá face a face.

*****

Escritores sempre voltam aos mesmos temas; a obsessão parece ser o outro nome do estilo. A diferença entre estilo e chatice, entre monomania e continuidade, é um dos enigmas da linguagem.
E essa qualidade da criação literária tem correspondência na vida cotidiana, através dos sonhos.
Um de meus sonhos recorrentes – e já devo ter falado sobre isso aqui – é o do telefone. Tenho uma notícia importante e preciso ligar com urgência para alguém. Vou até um aparelho; começo a digitar – ou discar. No meio da operação, esqueço o número e tenho que fazer tudo de novo. Jamais consigo completar a ligação; acordo antes. Dá uma certa angústia.
Só sei que a notícia do sonho mais recente tinha algo a ver com os terroristas colombianos e o governo brasileiro. E tinha por conclusão uma frase de Lichtenberg: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.

*****

E a frase de Lichtenberg vêm a propósito: morreu Alexander Soljenítsin, a voz literária que denunciou os horrores do comunismo.

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Enviado por Paulo Briguet, 07/07/2008 às 16:49

Descobri que estava perto dos 40

Descobri que estava perto dos 40 quando senti irritação nos olhos com a fumaça de um bar. Quando passei a não odiar completamente meus inimigos. Quando achei desnecessário, e até mesmo pior, responder à idiotice e à estupidez. E hoje em dia, se faço isso, por descuido ou impulso, ralho comigo mesmo: “Ei, rapaz, você já tem quase 40 anos!”

Percebi a passagem do tempo quando descobri que poderia mudar de opinião sem grandes escândalos. Foi só um passo para descobrir que a ideologia não era a coisa mais importante do mundo – e até mesmo uma das mais desimportantes. Qualquer sonata de João Sebastião é mais importante que as obras completas de Lênin.

Descobri que o tempo tinha passado quando minha prima caçula já era casada e mãe. Quando notei que alguns colegas de trabalho têm idade para ser meus filhos. Quando comprei o Estadão de domingo e percebi que isso havia se tornado um hábito. Quando li o editorial da página 3 e concordei plenamente. Quando admiti que Che Guevara foi um assassino. (Antes eu sabia disso, mas não tinha coragem de usar a palavra.)

Descobri que estava perto dos 40 quando concluí que não é da benevolência do dono do restaurante que depende o nosso almoço. Quer dizer: não existe almoço de graça. Quando torci para um candidato de direita vencer as eleições, e fiquei sinceramente triste porque isso não aconteceu.


Quando pensei até em votar no Barbosa, com quem eu havia polemizado ferozmente um dia, notei que estava perto dos 40. Quem sabe o Hauly...

Quando a placa de Feliz Natal de um ano começou a servir para o outro ano, eu descobri que estava perto dos 40.

Quando vi que o Nazareno estava certo, vi que estava quase com 40.

Quando descobri o prazer de lavar louça e fazer café, os 40 anos estavam batendo à porta.

Descobri que estava perto dos 40 quando não tive pique para beber em jornada dupla (à tarde e à noite). Fui para casa dormir...

Quando comecei a não gostar tanto assim de Álvaro de Campos e a adorar cada vez mais os “Quatro quartetos”, é que os 40 já se aproximavam. Quando passei a entender e aceitar algumas opiniões conservadoras do Eliot – que antes eu julgava absurdas –, já era praticamente um quarentão em espírito.

Quando passei a fazer compras no sábado à tarde – e sem reclamar – os 40 anos eram uma questão de (pouquíssimo) tempo.

Quando não me espanto nem fico revoltado se políticos mentem – afinal, eles são políticos, estão lá para isso mesmo... – eis os 40. (Desde que não matem, roubem e me encham o saco, já me dou por satisfeito.)

Descobri que o tempo tinha passado – e como foi bom. Não sou mais um adolescente, nem um tipinho engajado, nem um dono da verdade. Estou sozinho com minha mulher, meus amigos e minhas piadas. Ainda faltam dois anos para eu completar 40 – será que eu chego lá? Talvez sim. Seja o que Deus quiser.

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Enviado por Paulo Briguet, 25/06/2008 às 11:17

Santos


Quando a gente perdia algum objeto, Maria rezava para São Longuinho. Em poucos minutos, a coisa – chave, carteira, relógio, anel, dinheiro – era encontrada. Maria dava três pulos e três gritos: “Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho!”
Resolvi pesquisar sobre São Longuinho. Segundo as mais remotas fontes cristãs, era um militar romano que teria presenciado a crucificação. Com sua lança, ele feriu Jesus embaixo do peito. Do ferimento, saíram água e sangue. Os líquidos espirraram nos olhos do agressor, que se curou de uma grave enfermidade ocular e ali mesmo, aos pés da cruz, testemunhou a divindade de Cristo. Ou seja, Longuinho (ou Longino, cujo nome em grego significa “a lança”) seria o primeiro a ver o que os outros ainda não vêem – daí a sua capacidade de encontrar as coisas perdidas.
Quando alguém se engasgava, Maria batia nas costas da pessoa e invocava: “São Brás!” A tradição diz que São Brás, ao ser levado para o martírio, encontrou na beira da estrada um menino com uma espinha de peixe na garganta. Ele colocou as mãos na garganta do menino e o salvou.
Médico e bispo da igreja, perseguido pelos romanos, Brás certa vez refugiou-se numa caverna, onde os animais selvagens não o atacavam.
Por falar em animais, quando algum cachorro bravo chegava perto e a gente ficava com medo, Maria dizia: “Ai, meu São Roque”. Padroeiro dos inválidos e dos cirurgiões, Roque destacou-se ao tratar doentes da peste negra (por volta do ano de 1348). Quando contraiu a doença, refugiou-se nas montanhas para não contaminar ninguém. Só não morreu de fome porque um cão selvagem o alimentou. Roque se dava bem com animais: daí a invocação de Maria nos momentos de cachorro bravo.
E se as causas eram urgentes ou mesmo impossíveis, Maria chamava Santo Expedito. Esse era um militar corajoso, chefe da 12a Legião Romana, conhecida como A Fulminante. Seu ardor e generosidade eram capazes de resolver os problemas mais difíceis. Quando Expedito iria se batizar, o demônio apareceu na forma de um corvo e gritou: “Crás!” (em latim, “Amanhã!”). Expedito o afastou respondendo: “Hodie!” (“Hoje!”)
Tomás, filho do meu querido amigo Ranulfo Pedreiro, nasceu no domingo, dia 22 de junho – Dia de São Tomás More. O nome foi escolhido por um feliz acaso. Outro santo xará, Tomás de Aquino, era filho de Landulfo. Conta-se que Tomás de Aquino tinha cinco anos de idade quando viu um grupo de monges rezando. Perguntou a eles: “Quem é Deus?”
Tomás passou a vida inteira respondendo a essa questão. E o assunto não terminou até hoje.
Amanhã? Não: Hoje!

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Enviado por Paulo Briguet, 24/06/2008 às 10:22

Canção do coração


Toda minha vida
trabalhei a esmo,
como um farol
noite inteira aceso
sem achar resgate
no cais do relento.

Nas horas de calma,
nas de desespero,
fui a tua alma
e o teu corpo inteiro.
A cada segundo
eu batia à porta,
conduzindo o mundo
pela tua aorta.
(Assim fiz o fundo
de tua vida torta.)

Se amor e trabalho
fazem tua essência,
fui o teu milagre,
fui tua ciência.
Amei, trabalhei,
como a pedra cala,
como o homem pensa.
Só trabalha e ama
quem dentro da carne
bate e não reclama,
pura conseqüência.

Para tua lavra
Deus por sorte fez-me
- e, se fui escravo,
fora de mim mesmo.

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Enviado por Paulo Briguet, 20/06/2008 às 11:24

Até o último minuto

Você não precisa ter medo. Estarei ao seu lado até o último minuto da minha vida. Não sei quando esse minuto acontecerá; pode ser daqui a uma hora, pode ser daqui a 50 anos. Não sei o tempo, só sei o lugar: ao seu lado.
E não farei isso só porque prometi ao padre; não farei nisso porque é meu dever, ainda que ele exista; não farei isso por amor, ainda que ele seja incomensurável; farei isso porque não existe outro caminho. Partir longe de você está fora de questão.
Desculpe, mas agora terei que usar o bordão de Sérgio Mallandro: “Você tá triste? Não fique triste!” Não acho muita graça no Mallandro, mas admiro essa conexão imediata, quase xamânica, entre a melancolia e a felicidade. Você tá triste? Não fique triste!
E se digo com todas as palavras – até o último minuto da minha vida – é porque certamente você vai viver algum tempo depois de mim. Fique sossegada; estou bem; nunca me senti tão bem. Respiro, como, bebo, durmo, trabalho. Só precisaria caminhar mais um pouco.
Não fique triste quando eu partir. No dia em que isso acontecer, basta me procurar nos esconderijos da natureza, nos quintais abandonados, nas churrasqueiras, nas casas do outro lado da rua, no mínimo arbusto, no cachorro sem-noção. Você então lembrará que nasci pouco depois do ocaso, e nessa hora eu sentia uma combinação de desespero e tranqüilidade, de distância e presença, de pensamento e intuição. Você lembrará que, no final de uma tarde, eu pensei que todas as coisas visíveis e invisíveis, absolutamente todas, sem tirar nenhuma, estavam presentes no minuto da Criação. Aquela árvore é filha da primeira árvore. Aquela pedra é filha da primeira pedra. Aquela nuvem é filha da primeira nuvem. A sua sombra é filha da primeira sombra. O coração do homem desconhecido que cruzou a rua é filho do primeiro coração. E você é filha da primeira mulher e do primeiro homem, assim como estas palavras são filhas da primeira Palavra.
E se caminho na rua, e se dou uma cochilada no ônibus, e se leio um poema do Bruno Tolentino, e deito a seu lado e durmo, vejo as repúblicas que freqüentei; escuto as músicas dentro da noite; sento-me à beira de um riacho; piso a areia alva e quente de uma praia; desapareço no escuro de uma festa; converso com meu avô; tomo cerveja com meu pai; perco-me nos corredores de uma biblioteca interminável; procuro um livro no sebo; olho para um ipê que nunca mais floriu; ouço os latidos do meu cachorro que morreu há 12 anos e os galos das mais remotas manhãs.
Ouça bem. Estamos presentes, agora, no minuto da Criação. Você tá triste? Não fique triste!

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Enviado por Paulo Briguet, 13/06/2008 às 16:52

Modesta proposta


O Ministério Público de Londrina acaba de pedir o afastamento de quatro vereadores: Sidney de Souza (PTB), Gláudio de Lima (PT), Luiz Carlos Tamarozzi (PTB) e Jamil Janene (PMDB).
Eles são acusados de receber propina para votação de um projeto.
Sidney de Souza é presidente da Câmara de Londrina.
Gláudio de Lima é líder do prefeito Nedson Micheleti (PT).
Luiz Carlos Tamarozzi é corregedor da Casa.
Jamil Janene é peixe pequeno.
Minha modesta proposta é a seguinte: fechar a Câmara e a Prefeitura. Até ano que vem.

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Enviado por Paulo Briguet, 06/06/2008 às 14:49

Verdade seja dita

É, meu amigo, a vida deveria ser mais simples.
Vou dar um exemplo. Quando faltasse grana, alguém pararia a gente na rua:
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Quer ser “praca”?
– Ganha mais que garçom?
– Ganha.
– Então eu topo.
– Vem comigo. O emprego é teu.
Depois de um diálogo tão simples, a falta de dinheiro estaria resolvida. Você ganharia uma boa bolada só de carregar uma “praca” publicitária.
Mas isso só acontece em Londres. Aqui em Londrina, só param a gente na rua por outro motivo.
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Então vem fazer um empréstimo aqui na financeira.
O mundo é complicado. Principalmente se você mora em Londrina, não em Londres.
Hoje é um dia triste para você, meu amigo. A aliança não está mais na sua mão esquerda. Se você pôs a aliança ali – e eu sei bem disso – é porque pretendia ficar com ela a vida inteira. Não é por acaso que o coração fica do mesmo lado. Já passamos da idade de brincar com essas coisas.
Não deu certo. Fazer o quê? Talvez os budistas tenham razão: o segredo da felicidade é a eliminação de todos os desejos.
E o mais chato dessa história de separação devem ser os pequenos problemas. Contas conjuntas, financiamentos, contratos, aluguéis... Os móveis que vão, os móveis que ficam. O disco do Pixinguinha, o livro do Neruda.
E os amigos? E os parentes? E aquele pentelho que insiste em dizer: “Vocês ainda vão voltar, eu tenho certeza!”
Dói? Dói. Faz tempo que eu não sinto isso, e pretendo nunca mais sentir (meu casório vai muito bem, obrigado, tirei a sorte grande), mas é uma dor lascada e parece que não acaba. Comparável, só a dor de dente. Dor de separação é como se alma tivesse cárie.
A boa notícia é que passa, meu amigo. Desculpe o gilberto-gilismo, mas terei de falar: a dor passa, “ou não”.
A dor passa na gente da mesma forma que a gente passa numa rua. Esta nunca mais será igual. Mas, na memória, é a mesma rua para sempre. A aliança que você não usa mais continuará existindo mesmo depois que o sol apagar a marca no dedo. Estará ali e será a mesma; não adianta. Meu pai serviu exército em 1960 – e até hoje sonha que está no quartel. Aliança, rua, quartel – isso tudo é você. Às vezes você vai encontrar quem já foi embora há muito, muito tempo.
Cada vez mais tenho certeza de que amigo serve para isso que acabei de fazer: dizer o óbvio mais óbvio em momentos de crise. Verdade seja dita: o verdadeiro amigo é o rei dos truísmos. Ou não!
Muita paz, irmão.

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Enviado por Paulo Briguet, 04/06/2008 às 10:52

No tempo das quadrilhas

– O tempo esfriou, né, compadre?
– Só se for o tempo do céu. Que o tempo da terra parece que esquentou de vez.
– É o aquecimento global?
– Não, é uma quentura daqui mesmo. Uma fogueira braba. Tá assim de neguinho com medo de sair queimado. Teve um que resolveu mostrar as facas.
– Cruz credo. Tomara que isso não acabe em sangue.
– Sangue eu não sei, mas já tô sentindo cheiro de carniça.
– E de onde vem esse cheiro, compadre?
– Vem de tudo que é canto. Acho que é mais fácil dizer onde NÃO tá fedendo. Até defunto entrou na história.
– Tem gente que não respeita morto e ainda por cima dá emprego pra fantasma.
– E o que mais tem é capiau se fingindo de morto.
– Que saudade do tempo em que quadrilha era coisa de festa junina!
– Eu me lembro do tempo em quadrilha era coisa de Santo Antônio, São João, São Pedro. Isso acabou. Não tem mais santo nessa história.
– Antigamente o pessoal dançava quadrilha. Agora a turma forma quadrilha.
– E tudo que essas quadrilhas modernas menos querem é dançar.
– Que saudade, compadre. Que saudade das festas. Sempre alguém gritava: OLHA A COBRA! E outro emendava: É MENTIRA!
– Mentira inocente... E as músicas? Tinha uma que era assim: “Nesta noite de folguedo / Todos brincam sem medo / A soltar seu pistolão”. Com o tempo, o pistolão virou caso de polícia, compadre.
– Do jeito que a coisa ficou, muita gente podia sair por aí cantando: “Cai cai, balão / Cai cai, balão / Aqui na minha mão / Não vou lá, não vou lá, não vou lá / Tenho medo de apanhar”.
– Na quermesse, antes tinha quentão e batata doce. Hoje em dia é quentão e batata podre.
– Antigamente menino soltava bombinha. Não machucava ninguém. Agora é adulto que solta bomba. E das grandes. Sobra fagulha pra todo mundo.
– Antes a turma queria ganhar as prendas. Agora só pensam em delação premiada.
– Mas tem uma coisa que sobrou das velhas festas juninas.
– Quê?
– A cadeia, compadre. A cadeia.

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Enviado por Paulo Briguet, 02/06/2008 às 12:18

Alguém igual a mim

Alguém igual a mim
mora no mundo.
(Alguém igual a mim.)

Eu moro onde morre
a grande avenida.
Depois há um bosque
onde mora o lobo,
onde mora o anjo,
onde mora a morte
com seu nome santo.

Alguém igual a mim
mora no mundo.
(Alguém igual a mim.)

Eu moro onde morre
a grande planície.
Eu moro no morro
onde morre
a sombra do vidro.
Eu moro no morro
onde morre
meu nome esquecido.
Eu moro onde é.

Alguém igual a mim
morre no mundo.

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Enviado por Paulo Briguet, 02/06/2008 às 11:48

A zona do recanto e o recanto da zona

1º de abril de 1964. Não existe data mais simbólica e adequada para o nascimento de um político brasileiro.

*****

Só para constar: o vereador cassado, antes que as denúncias aparecessem, era um dos mais fiéis defensores do prefeito na Câmara. Com direito a indicações de cargos.

*****

Recanto Dá Licença fechado; recanto licencioso aberto. O recanto não tem zona; a zona tem recanto. Eis o retrato da cidade de Londrina.

*****

A Justiça proibiu a construção de mais uma hidrelétrica. Os ambientalistas comemoram. Por coerência, deveriam festejar à luz de velas. Depois, banho frio. Brrrr.

*****

Diogo Mainardi deu o furo: o Palácio do Planalto, via Ministério da Pesca, emprega a mulher de Olivério Medina, líder das Farc. Imaginem se o Bush colocasse o parente de um líder da Al Qaeda na Casa Branca. Os chapas-brancas tentam disfarçar, mas é praticamente a mesma coisa. O Brasil perdeu a capacidade de se escandalizar.

*****

O nome é Garotinho. Mas a quadrilha vem no aumentativo.

*****

O governo quer ressuscitar a CPMF. Sabe aquele personagem do filme “Sexta-feira 13”, o assassino que reaparecia depois que todos o consideravam morto e enterrado? Pois é. A nova CPMF deveria se chamar Jason.

*****

Há o festival de teatro, de música e de dança. Mas o maior festival ainda é dos impostos.

*****

Alguém aí conhece o país em que a população trabalha cinco meses para o governo?

*****

No final dos anos 60, Estela e Joel assaltavam bancos. Nunca se arrependeram. Hoje são os ministros Dilma Rousseff e Carlos Minc.

*****

No começo do século 20, o militante Koba assaltava bancos. Nunca se arrependeu. Depois se tornou mais conhecido por outro apelido: Stálin.

*****

Nos últimos anos, os fumantes têm sido vítimas de uma histeria coletiva. Antes, pelo menos, podiam fumar ao ar livre, em alas especiais de restaurantes e nos “fumódromos”. Não podem mais. Daqui a pouco vão ser proibidos de fumar dentro de suas próprias casas. E o pior é que são descritos como seres moralmente inferiores, sem força de vontade, suicidas e assassinos em potencial. Há um fascismo antitabagista no ar. E não digo isso em causa própria: não sou fumante.

*****

Para onde vão os cães e gatos que somem e nunca mais aparecem? Devem estar reunidos em algum lugar, planejando uma Revolução dos Bichos, uma arca de Noé às avessas, ao estilo de George Orwell.

*****

O financiamento da cultura em Londrina é feito quase que exclusivamente com verbas públicas. Tire-se o dinheiro da Viúva e a cultura local desaparece. Mas ninguém fala nada, com medo de perder a grana da próxima vez. O círculo se fecha. Já chegamos a 1984.

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Enviado por Paulo Briguet, 30/05/2008 às 11:58

Dá licença, prefeito!

O Recanto Dá Licença, um dos melhores restaurantes de Londrina, estará fechado a partir deste final de semana, “em razão da falta de consenso do poder público sobre o funcionamento de um restaurante naquele local”, segundo informam os proprietários. Enquanto isso, do outro lado da cidade, a casa de shows e encontros amorosos onde cantam “Galopeeeeeeeira” continua funcionando normalmente. Dá licença? A Prefeitura dá. Mas nem sempre. “Nunca mais te esquecereeeeeeei.”

******

Vocês viram como os ipês roxos estão bonitos? Um passarinho me contou que esses ipês não são árvores nativas do Norte do Paraná. Portanto, são exóticos. Como é objetivo declarado da atual gestão erradicar as árvores exóticas, o espetáculo das flores pode estar seriamente comprometido. Cuidado com a Moto-Sema!

*****

Coração me lembra a novela Saramandaia (o coração de um dos personagens saía pela boca). Saramandaia me lembra a música “Pavão Misterioso”, do Ednardo. Pavão misterioso me lembra o dia em que eu, o Chicó e o Rafael corremos atrás de um pavão durante um churrasco no Iate Clube. Iate me lembra milionário. Milionário me lembra milhão. Milhão me lembra Silvio Santos. Silvio Santos me lembra a Vó Maria. Vó Maria me lembra Castro Alves (a rua em que ela morava). Castro Alves me lembra a Cachoeira de Paulo Afonso. Paulo Afonso me lembra um garoto de óculos que estava na minha classe em 1981. 1981 me lembra o show do Queen no Morumbi. Queen me lembra o tio Machado, que brincava dizendo que o grupo deveria se chamar “Joaqueen”. Joaquim me lembra o português da padaria da Alameda Eduardo Prado. Alameda Eduardo Prado me lembra o antigo endereço do Zé em São Paulo. São Paulo me lembra Adoniran Barbosa. Adoniran me lembra Bellini; Bellini me Fellini; Fellini me lembra uma conversa em Presidente Prudente; Presidente Prudente me lembra chuva; chuva me lembra você; e você me lembra coração.

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Enviado por Paulo Briguet, 26/05/2008 às 11:20

O assalto às palavras

Na última sexta-feira, houve uma solenidade no gabinete do prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT). Confirmou-se o patrocínio de R$ 1 milhão aos três festivais da cidade (de teatro, música e dança). Os recursos vêm do orçamento da Prefeitura e da Caixa Econômica Federal. É, portanto, dinheiro público. Mas ai de quem falar que a cultura em Londrina foi estatizada. Políticos e produtores culturais lançarão raios vingadores sobre a cabeça do apóstata.
Contudo, o fato é inegável: tire-se o dinheiro público e a cultura de Londrina praticamente desaparece. À estatização da cultura, segue-se a estatização da crítica: no meio cultural, todo mundo sabe o que acontece, mas ninguém fala nada, por medo de que a verba não venha. Fecha-se o círculo.
Vivemos numa época em que as palavras estão morrendo. Algumas morrem de inanição, por uso abusivo e indiscriminado (ética, cidadania, povo, justiça social); outras são simplesmente proibidas. Estatização é um desses termos impronunciáveis. Trabalhamos cinco meses para o governo, mas a ninguém ocorre dizer que somos escravos estatais. E o presidente ainda fala em ressuscitar a CPMF!
Quando estourou o caso do mensalão, o governo logo montou a versão de que tudo seria “apenas” caixa dois (um crime supostamente mais palatável). Mas nem mesmo a expressão caixa dois foi usada; o tesoureiro Delúbio a substituiu por “recursos não contabilizados”. E assim ficou.
Em recente episódio, a Casa Civil afirmou que o dossiê contra FHC não era dossiê, era “banco de dados”. Depois, o nome mudou outra vez: banco de dados virou “base de dados”.
Por falar em banco, o ato de invadir um deles para roubar dinheiro tem nome: assalto. Mas, na época da ditadura, os grupos revolucionários de esquerda, quando cometiam esse crime, diziam que era “expropriação”. No final dos anos 60, a camarada Estela planejou “expropriações”. O militante Joel, da mesma organização, participou como assaltante, ou melhor, “expropriador”.
Estela é a atual ministra Dilma Rousseff (a mesma do “banco de dados”). Joel é Carlos Minc, indicado para ministro do Meio Ambiente. Não se arrependem do que fizeram; pelo contrário, orgulham-se. Dizem que estavam lutando contra a ditadura. Não dizem que lutavam para implantar uma ditadura pior – a comunista.
No início do século 20, o militante georgiano Koba ficou famoso por executar “expropriações” a bancos na Rússia. Mais tarde, ele se tornaria mundialmente conhecido por outro nome: Josef Stálin. Mas, se eu disser que Stálin e Dilma desenvolviam a mesma atividade na juventude, serei chamado de leviano e reacionário. Porque as palavras mudaram, perderam o sentido. Foram expropriadas.

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Enviado por Paulo Briguet, 23/05/2008 às 09:49

O césar e o mendigo


Por quatro dias, fui o homem mais rico do mundo. Tive nas mãos o ouro mais precioso. E, no entanto, esse ouro era também o mais sutil. Perdeu-se. Esvaiu-se. Voltará.
Não tive dúvidas em compartilhar com os amigos a minha felicidade. Não vejo por que não tornar pública, também, a minha tristeza. Sei que para nós, seres mergulhados no tempo, um e outro estado são frágeis e passageiros. A felicidade permanente só existe na eternidade.
“Agora vemos como que através de um espelho, mas depois veremos face a face.” O filho que se anunciou nestes quatro dias foi uma súbita iluminação; cheguei a imaginar sua face, suas mãos, sua voz.
Durante algum tempo, quando você esteve longe, meu amor, por minha única e exclusiva culpa, pensei que acabaria me tornando um mendigo.
Não foi o que aconteceu. Você voltou. Foi minha primeira e súbita riqueza.
A notícia destes quatro dias – de sexta a terça-feira – me transformou no oposto daquele mendigo antes imaginado. Agora eu era o césar do meu infinito e pequeno império. Só me esqueci de que esse império também é vulnerável e sutil. Pode ir embora em apenas quatro dias.
Na noite de segunda-feira, ouvimos as palavras do velho arcebispo. Ele disse que a insatisfação humana tem uma só origem: a saudade do Céu. No fundo de nossa alma, guardamos memórias indistintas (“como que através de um espelho”) do paraíso perdido. O velho Freud, que não acreditava no Céu, disse que a felicidade humana não estava prevista no plano da Criação. Depois destes quatro dias, eu sei que Freud estava errado e o velho arcebispo, certo.
O velho Camões fala sobre a saudade do Céu nos versos de “Sobre os rios que vão”. Li uma passagem do poema no adeus ao poeta e amigo Thomaz D’Amico: “Não é logo a saudade / das terras onde nasceu / a carne, mas é do Céu, / daquela santa cidade / donde esta alma descendeu”. Leio-as agora, mais uma vez, no adeus ao filho que por ora perdemos. Ele preferiu partir a mergulhar no tempo. Nós ficamos tristes, por enquanto, porque vimos um átimo da eternidade. Voltará. É da essência da eternidade o poder de ressurgir. De uma tal certeza, retiramos as forças para aceitar – e recomeçar.
No Gênesis, o incomparável poema da Criação, Deus faz a luz no primeiro dia; depois, o céu e a terra; depois, o mar, os continentes e as plantas; no quarto dia, o Sol e as estrelas. O homem só seria criado no sexto dia.
Ontem você viu uma estrela cadente, enquanto eu falava de meus pecados. Hoje sei que sou apenas um homem – nem césar, nem mendigo, talvez os dois ao mesmo tempo. Com as mãos estendidas, espero o sexto dia e o ouro sutil de nosso filho. Saudade.

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Enviado por Paulo Briguet, 19/05/2008 às 11:14

O homem mais rico do mundo

Todo mundo tem ouro escondido em casa. Tanto isso é verdade que distribuem aqueles mosquitinhos de “Compro ouro” nas esquinas do centro. Se há gente comprando ouro, é que as pessoas têm ouro. No fundo de gavetas, na solidão de caixas antigas, no escuro dos armários, em fundos falsos, em cofres ocultos, nos esconderijos mais improváveis – lá está o ouro.
Quando os ladrões invadem uma casa, vão logo perguntando pelo ouro, e por sua tradução em forma de cédula, o dólar. Mas acontece que o dólar pode se desvalorizar, como está acontecendo agora. O ouro, não. O ouro permanece valioso para toda a eternidade.
Pois, meus amigos, eu confesso que agora também tenho ouro escondido em casa. Não é ouro em pedra, não é ouro em pó, não é ouro em jóias. Também não é o ouro-dólar, o ouro-euro, o ouro-yuan. É simplesmente um ouro escondido no templo mais sagrado do universo. É meu filho: o ouro puro da vida, a mais reluzente das fortunas.
Nunca tive jeito para ganhar dinheiro. Infelizmente não tenho vocação para acumular capital. Mas hoje eu me sinto o homem mais rico do mundo. E agradeço ao poeta da Criação, esse garimpeiro do impossível.

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Enviado por Paulo Briguet, 16/05/2008 às 17:11

Ave, dicionário

Não tenho palavras
para o dicionário.
Um livro entre os livros
extraordinário.

Um livro de termos
que buscam sentido
– e, só de o termos,
temos um amigo.

Dito pai dos burros,
é bem diferente.
Livra dos apuros
iletrados sábios
eruditos parvos
– pai de toda a gente.

Tem o dicionário
tudo a dizer.
Como pote ao fim
do tênue arco-íris
tende a dizer sim
este liber libris
que há de A a Z.

Assim diz o vário
livro das palavras.
Ele é o amparo
que tu procuravas.
Ele é o poema
das definições.
Ele é romance
mais inacabado.
Boca de Machado,
língua de Camões.

Fico sem palavras,
tendo ao silêncio
quando nestas folhas
paro, olho e penso.
Donde eu estava,
disso estou certo,
ele estava perto.

Fonte da clareza,
morte dos enganos,
ele é o mais raro
dos papéis humanos.
Símile das coisas,
síntese dos idos,
sol que unifica
os duplos sentidos.

Ave, dicionário.
Sem ti, não sei nada.
Mesmo quando durmo
és o astrolábio,
mostras-me o rumo
mesmo do inefável.

Mas és diferente
de um pai patrão;
és a velha norma,
és a própria forma
do velho Platão.
De cada verbete
és o próprio irmão.

Dentro da caverna,
casa da palavra,
és a luz eterna
que se procurava.

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