Enviado por Paulo Briguet, 18/08/2008 às 11:40

Oração de um homem que não sabe rezar

Querida Madre Leônia:
Vim aqui rezar (eu não sei rezar) por meu pai e minha mãe, para que vivam mais 30 anos, para que não sofram, para que não se angustiem. Vim aqui rezar (mesmo sem saber rezar) pelas crianças perdidas, pelos cães sem dono, pelo velhinho que era jardineiro e hoje vende capachos no sinal. Pelos adolescentes que não sabem o que fazer nas tardes de domingo e se tornam tão chatos quando em grupo, tão chatos.
Vim aqui rezar (mas eu não sei rezar), Madre Leônia, diante de teu túmulo, pela alma de minha Vó Maria, que se estivesse viva completaria 90 anos em 30 de agosto vindouro. Vim aqui rezar (e o ignoro) pelos que ainda usam a palavra “vindouro”.
Vim aqui rezar (não aprendi a rezar) pelas casas que só existem na memória. Pelo rapaz que levou um tombo em Pequim. Pela moça que perdeu a vara na hora de saltar. Pelo cavalo e o cavaleiro que caíram juntos.
Rezar, Madre Leônia: é para isso que eu vim (embora não saiba). Para que eu descubra mais amor dentro do amor que já é tanto. Para que o pecado não bata à minha porta com sua tempestade de demônios. Para que eu compreenda, querida Madre Leônia, aquilo que, por ser burro, não compreendi até agora. Para que aprenda aquilo que não aprendi. Para que eu segure sempre a cavalaria dos meus ódios.
Vim aqui rezar (mesmo não sabendo), Madre Leônia, se me permite, pelos bares fechados, mortos ou vazios. Pelas mentes que se encharcaram de pinga. Pelos mendigos que desaprenderam a falar e não tomam banho há 14 anos. Pelos candidatos a vereador que não sabem nem pronunciar uma palavra, e portanto não sabem mentir, e portanto não devem conseguir mais de 10 votos na próxima eleição.
Vim aqui rezar (e só sei que não sei fazê-lo) pelas professoras que ganham pouco e trabalham muito, mesmo sendo ignoradas pelos alunos; pelos gols perdidos nos acréscimos do juiz; pelos goleiros vazados por atacantes em impedimento; pela alma do Barbosa, goleiro do Brasil na Copa de 1950.
Vim aqui rezar (não sei, nem sei se saberei) pelo namorado que tem chulé e não sabe; pela moça que tem mau hálito e não sabe; pela dona-de-casa que é irritante e não sabe – para que saibam, Madre Leônia, para que saibam!
Vim aqui rezar (sem sabê-lo) pelo poeta que escreve mal, e mesmo assim tem o sentimento da poesia. Pelos últimos colocados nas provas de natação. Pelos fracassados de todo o globo terrestre – continentes e mares – vim rezar. Pelos que morreram afogados no Oceano Pacífico, esse imenso vazio de água deixado pela Lua ao se separar da Terra.
Vim rezar (mesmo inepto), com minha língua pesada, Madre Leônia, pelos que pagam impostos até maio e nada recebem em troca. Pelos que choram no cantinho. Pelos que abaixam a cabeça e andam de ombros caídos.
Por Judas, o obscuro, de Thomas Hardy, se é que existiu alguém como ele (e acho que existiu). Pelos que tentaram dizer as últimas palavras e não conseguiram. Por todos os apartados, anônimos e infelizes do mundo. Pelos felizes, realizados e autoconfiantes. Pelos primeiros, pelos últimos. Pelas almas do Purgatório e pelo Limbo que não existe nem nunca existiu. Eu rezo, posto que não o saiba, Madre Lêonia, aqui diante de teu túmulo, nesta avenida que tem o teu nome, nesta hora que também é a tua hora. Ensina-me a rezar, Madre Leônia – ou que eu me cale para sempre.

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Enviado por Paulo Briguet, 13/08/2008 às 12:36

Santa Paciência


Quando Deus perguntou a Salomão o que ele mais desejava, a resposta foi: “Sabedoria”. Se o Criador um dia me conceder a honra da mesma pergunta, só pedirei paciência.
São Paulo dizia que as três coisas mais importantes são fé, esperança e amor. Este cronista – que é Paulo, mas não é santo – acredita na paciência como o primeiro passo para se chegar à tríade paulina. Talvez até mais do que isso: pois quem tem a verdadeira paciência necessariamente já tem fé e esperança. E o amor começa com um ato de paciência. Todo amor é paciente, já dizia São Paulo. Sem paciência não há amor. O amor sabe esperar.
Paciência, ao contrário do que muitos acham, não é sinônimo de passividade. Quem é paciente sabe agir. E só é paciente porque acredita naquilo que está fazendo. A paciência é a qualidade daqueles que fazem e esperam ao mesmo tempo.
A paciência é uma virtude de pescadores. Por isso, Jesus procurou discípulos entre a categoria. E não deu os peixes: ensinou-os a pescar. Deus, ensinai-me a ser paciente.
Sem paciência, ninguém lê a Bíblia, Os Sertões, A Divina Comédia, Guerra e Paz ou Crime e Castigo. Nem mesmo este jornal pode ser lido sem paciência. Nem uma lista de supermercado. Nem um e-mail. Sem paciência, nenhuma palavra seria escrita. Nem mesmo as línguas existiriam.
A paciência é prima da aceitação e da coragem. É a combinação dessas duas qualidades que parecem opostas. Para aceitar a verdade, é preciso coragem. Para ter coragem, é preciso aceitar a verdade. A paciência está no meio do caminho.
Paciência não é submissão, não é omissão, não é fuga. Paciência é saber o tempo das coisas. É não gastar tempo e trabalho com inutilidades. O homem paciente vai ao principal. E espera.
É preciso paciência com o celular que toca na hora errada – se for importante, vão ligar de novo. É preciso paciência com o locutor que festeja a medalha de bronze como se fosse um recorde mundial. É preciso paciência para suportar o alarme que disparou (e ninguém encontra o dono desse carro). É preciso paciência para agüentar 20 anos como refém do PT e de Belinati (e eles estão aí de novo!).
É preciso paciência. Na entrada e na saída. Dia e noite. Paciência acordado, paciência dormindo. Paciência com quem não tem paciência. Paciência com a buzina do motorista apressado. Paciência de Jó, paciência de Jacó, paciência de um ouvinte eterno do Skank e da Cláudia Leitte.
E só fato de você ter lido esta crônica até o final prova que você é uma pessoa paciente. Do contrário, paciência.

(Dedico esta crônica ao meu avô Briguet, que hoje faria 98 anos, gostava de pescar e era a paciência em pessoa.)

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Enviado por Paulo Briguet, 08/08/2008 às 11:54

Conheço um homem


Conheço um homem que lê muito. Se lhe tirassem o jornal ou o livro por um só dia, seria o mesmo que deixá-lo sem almoçar. Atualmente está lendo as crônicas de Manuel Bandeira, poeta que admira e de quem sabe vários poemas, de memória.
Conheço um homem que fuma há 50 anos, mas tem os pulmões estranhamente mais limpos do que a medicina esperaria. Milagre? Acho que não. Ele caminha todas as tardes, exceto quando chove. E isso lhe deve dar algum fôlego.
Conheço um homem que me ensinou a nadar e a jogar xadrez, mas não conseguiu me ensinar a dirigir. E todas as três coisas ele faz melhor do que eu. Conheço um homem que já escrevia antes do meu nascimento; e também isso ele faz melhor.
Conheço um homem que tem certeza de que vai morrer. Todos nós estamos certos disso, mas ele tem, digamos, uma convivência mais próxima com a indesejada das gentes. Talvez porque, na juventude, tenha lido muito os existencialistas. Mas sei que ele vai viver bastante tempo – mais até que o Manuel Bandeira.
Conheço um homem que cuida de sua mulher de um modo não menos que comovente – e ela também cuida dele. Têm lá suas manias e diferenças, é claro. Mas estão juntos há 40 anos – e é quase impossível pensar no homem sem pensar na mulher. Sei que ele disse a ela, outro dia: “Sem você, eu já teria ido há muito tempo”.
Conheço um homem que se preocupa. Com a vida, com a morte, com as contas, com os seguros, com os prazos, com os remédios, com os parentes, com os amigos, com a política, com o país, com a história, com o mundo. As coisas que hoje nos angustiam já preocuparam o homem tempos atrás.
Conheço um homem que se preocupa até com a rotina do caixa de supermercado, da balconista da loja, do frentista do posto. Sempre que pode, lhes dá uma dica de filme em DVD. “Esse pessoal trabalha muito, precisa de um elogio, de uma palavra simpática.”
Por falar em filmes, conheço um homem que faz listas. De filmes elogiados pela crítica; de remédios que devem ser tomados (dias, horários, posologias); de cartas que escreveu ao jornal; de coisas sempre urgentes para fazer. Conheço um homem que torce pro Palmeiras, o que acabou me tornando palmeirense também. Não é muito fanático, não. Mas sabe sempre os resultados. E me liga de manhã para comentar o último jogo.
Conheço um homem que não se dá muito bem com a tecnologia moderna. Tem que pedir para a mulher encontrar as crônicas na internet. Apesar de fazer muito bem todas as operações do banco eletrônico, não aprendeu a guardar telefones na memória do celular. Fiquei surpreso quando ele disse que o telefone da mulher estava no celular. Fui ver, estava mesmo. Colado com fita adesiva.
Conheço um homem que ao mesmo tempo é o mais previsível e o mais surpreendente dos homens. Seria desnecessário dizer quem ele é, mas eu digo: esse homem é meu pai.

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Enviado por Paulo Briguet, 06/08/2008 às 13:21

Omelete


Às vezes eu acho que o pessoal está desaprendendo a ser feliz.
Na segunda-feira, cheguei em casa e a TV a cabo estava fora do ar. Foi um Deus-nos-acuda. Todo mundo queria assistir ao Jornal Nacional e à novela das oito, mas, sem TV a cabo, nada feito. Desaprendemos a ver televisão à maneira antiga.
Liguei para o porteiro, achando que o problema era só no meu apartamento. Não era. A pane deve ter atingido todo o bairro. Na central de atendimento da operadora, ninguém atendia – só aquela musiquinha chata.
Você queria ver a novela. Fomos ao computador, na esperança de que fosse transmitida on-line. Descobrimos que não é. Resolvi tomar banho. Quando saí, a TV já tinha voltado ao ar. Vimos a chatinha da personagem da Mariana Ximenes renegar a mãe adotiva, Cláudia Raia.
Dormi e sonhei que havia uma pane geral dos computadores. Arranjei, não sei onde, uma máquina Olivetti. E comecei a escrever. Os mais jovens ficaram admirados: “Você sabe usar máquina de escrever! É tão primitivo.”
Pois é. Desaprendemos a catar milho em máquina de escrever. Mas eu lembro muito bem da noite que eu passei datilografando o trabalho do professor Eduardo Judas Barros (falecido agora em julho; não acreditei quando recebi a notícia). Quando escrevi a última frase do trabalho – depois de usar quase um litro de Errorex –, o Sol estava nascendo na Rua Humaitá.
Ontem, a caminho do jornal, descobri que meu celular estava sem bateria. Já me especializei no esporte de não atender ao celular; afinal, ainda me recordo do tempo em que vivíamos muito bem sem ele. Quero que o celular seja meu escravo, e não o contrário.
Mas ninguém pense que eu sou contra a tecnologia. Nada disso. Sou muito favorável a tudo que melhore a vida. Mas tem que melhorar.
Recentemente, li um livro em que o personagem principal vive por 11 anos isolado numa casa de campo. De repente, decide fazer uma visita à cidade grande. Tem uma grande surpresa ao notar que as pessoas estão falando sozinhas na rua! É o celular.
Celular é muito bom, mas eu me lembro do tempo em que não precisava dele para falar sozinho na rua. Sempre tive esse hábito. E nem precisava recarregar a bateria.
Para que eu me sentisse feliz, a TV a cabo nem precisava ter voltado ao ar. Só o fato de saborear aquela omelete que você preparou, junto com arroz e salada, já me transformou no homem mais afortunado do Brasil. E eu com a Mariana Ximenes? Tenho você. E a louça é minha.

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Enviado por Paulo Briguet, 05/08/2008 às 10:12

Soljenítsin

“Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”, disse Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799). Se pensarmos nos regimes totalitários do século 20, a frase do cientista e escritor alemão ganha sentido profético.
O escritor russo Alexander Soljenítsin, que morreu neste domingo em Moscou, aos 89 anos, nunca foi um moderado – e jamais pôde ser acusado de indiferença. Graças a ele, em obras monumentais que combinavam memória, ficção e crítica, o mundo conheceu em detalhes os horrores da ditadura de Joseph Stálin (1924-1953).
Se Soljenítsin não tivesse escrito “Um dia na vida de Ivan Denisovich” (1962), “O primeiro círculo” (1968), “Pavilhão de cancerosos” (1968) e “Arquipélago Gulag” (1973-1978), teríamos conhecido os horrores do comunismo, mas talvez não com a mesma riqueza de detalhes, com a mesma contundência de imagens, com a mesma força de condenação. Soljenítsin não foi o único autor russo a denunciar o sistema comunista (não nos esqueçamos de Joseph Brodsky, Anna Akhmátova e Nadezhda Mandelstam), mas tornou-se um símbolo de resistência. A grande obra de arte pode ser devastadora; e os tiranos sabem disso.
Soljenítsin foi uma espécie de milagre. Formou-se em matemática e lutou na infantaria soviética durante a Segunda Guerra. Em 1945, após o final do conflito, escreveu uma carta em que fazia críticas a Stálin. A correspondência foi interceptada. Resultado: Soljenítsin passou dez anos preso como “inimigo do povo”; comeu o pão que o diabo amassou nos campos de trabalho forçado de Stálin, conhecidos por Gulag (sigla russa para Direção Geral dos Campos de Trabalho Coletivo). Soljenítsin sobreviveu a tudo: fome, frio, perseguição, maus-tratos, torturas e um câncer de estômago.
Com a morte de Stálin, em 1953, o poder foi assumido por Nikita Kruschev, antigo aliado do tirano. Em 1956, Kruschev iniciou um tímido processo de “desestalinização”. Nesse contexto, surgiu a novela “Um dia na vida de Ivan Denisovich”, que relatava os sofrimentos de um prisioneiro soviético, homem comum molestado pelas engrenagens totalitárias. O livro de Soljenítsin acabou por ser publicado em 1962.
A sorte de Soljenítsin durou pouco. Em 1964, Brejnev e Kossigin derrubaram Kruschev e o cerco ao escritor dissidente recomeçou. Em 1970, ele ganhou o Nobel de Literatura, mas foi desaconselhado a viajar para Estocolmo e receber o prêmio pessoalmente. Em 1974, Soljenítsin foi expulso do território soviético. Exilou-se em Vermont (EUA). Continuou escrevendo compulsivamente, movido por um sentimento de dever – sua obsessão era dizer sempre toda a verdade. Voltou à Rússia em 1994. Foi polêmico até o fim. Era um feroz anticomunista, mas também criticou asperamente o modo de vida ocidental. Deixa um legado de inconformismo e paixão moral digno dos grandes escritores russos do século 19. “A verdadeira obra de arte irradia uma força de persuasão absolutamente irrefutável, que obriga até o coração mais endurecido a se render.”

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Enviado por Paulo Briguet, 04/08/2008 às 13:11

O carregador das pedras

Vi um homem carregando um saco de pedras. Ofereci ajuda. Ele agradeceu e recusou:
– Já terminei o serviço.
Limpou o suor da testa com a manga da camisa:
– Este saco tem 50 pedras e é pesado. Agora, imagine o peso de todas as pedras do mundo. Ele carrega.
A vida está repleta dessas visões de Deus. Geralmente, estão ligadas à natureza: Ele carrega todas as pedras; sopra todos os ventos; acende todas as estrelas; move todos os mares e montanhas.
Vó Maria acreditava que o Céu ficava no céu. Revelou surpresa quando eu disse que os santos não moravam nas nuvens (pelo menos, não nas nuvens observáveis).
Às vezes eu entrava, pé ante pé, no quarto de Maria, para pegar alguma coisa no armário. Pensava que ela estivesse dormindo, mas não. De repente, escutava:
– Bzzz, bzzz, bzzz, bzzzz.
Era Maria rezando.
É claro que existem visões de Deus mais sutis e complexas que a do homem que carregava pedras ou da Vó Maria. Encontramo-las em São Paulo, Tertuliano, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Sóror Juana Inés de La Cruz, Santa Teresa de Ávila: escritores que oferecem sublimes conceitos do Ser e definem a existência de Deus como algo superior à própria natureza, que existiu e existirá mesmo sem ela, pairando sobre as águas.
A graça está no meio Caminho de Damasco entre a simplicidade da crença popular e a sutileza dos pensadores e poetas. No simples e no complexo. Tal como a física moderna, a fé trabalha com aquilo que é muito grande e aquilo que é muito pequeno: os átomos e as galáxias.
Sim, Vó Maria estava certa – e Santo Agostinho também. Uns procuram o Céu no céu; outros buscam o céu no Céu. Quem tiver olhos de ver, verá face a face.

*****

Escritores sempre voltam aos mesmos temas; a obsessão parece ser o outro nome do estilo. A diferença entre estilo e chatice, entre monomania e continuidade, é um dos enigmas da linguagem.
E essa qualidade da criação literária tem correspondência na vida cotidiana, através dos sonhos.
Um de meus sonhos recorrentes – e já devo ter falado sobre isso aqui – é o do telefone. Tenho uma notícia importante e preciso ligar com urgência para alguém. Vou até um aparelho; começo a digitar – ou discar. No meio da operação, esqueço o número e tenho que fazer tudo de novo. Jamais consigo completar a ligação; acordo antes. Dá uma certa angústia.
Só sei que a notícia do sonho mais recente tinha algo a ver com os terroristas colombianos e o governo brasileiro. E tinha por conclusão uma frase de Lichtenberg: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.

*****

E a frase de Lichtenberg vêm a propósito: morreu Alexander Soljenítsin, a voz literária que denunciou os horrores do comunismo.

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Enviado por Paulo Briguet, 07/07/2008 às 16:49

Descobri que estava perto dos 40

Descobri que estava perto dos 40 quando senti irritação nos olhos com a fumaça de um bar. Quando passei a não odiar completamente meus inimigos. Quando achei desnecessário, e até mesmo pior, responder à idiotice e à estupidez. E hoje em dia, se faço isso, por descuido ou impulso, ralho comigo mesmo: “Ei, rapaz, você já tem quase 40 anos!”

Percebi a passagem do tempo quando descobri que poderia mudar de opinião sem grandes escândalos. Foi só um passo para descobrir que a ideologia não era a coisa mais importante do mundo – e até mesmo uma das mais desimportantes. Qualquer sonata de João Sebastião é mais importante que as obras completas de Lênin.

Descobri que o tempo tinha passado quando minha prima caçula já era casada e mãe. Quando notei que alguns colegas de trabalho têm idade para ser meus filhos. Quando comprei o Estadão de domingo e percebi que isso havia se tornado um hábito. Quando li o editorial da página 3 e concordei plenamente. Quando admiti que Che Guevara foi um assassino. (Antes eu sabia disso, mas não tinha coragem de usar a palavra.)

Descobri que estava perto dos 40 quando concluí que não é da benevolência do dono do restaurante que depende o nosso almoço. Quer dizer: não existe almoço de graça. Quando torci para um candidato de direita vencer as eleições, e fiquei sinceramente triste porque isso não aconteceu.


Quando pensei até em votar no Barbosa, com quem eu havia polemizado ferozmente um dia, notei que estava perto dos 40. Quem sabe o Hauly...

Quando a placa de Feliz Natal de um ano começou a servir para o outro ano, eu descobri que estava perto dos 40.

Quando vi que o Nazareno estava certo, vi que estava quase com 40.

Quando descobri o prazer de lavar louça e fazer café, os 40 anos estavam batendo à porta.

Descobri que estava perto dos 40 quando não tive pique para beber em jornada dupla (à tarde e à noite). Fui para casa dormir...

Quando comecei a não gostar tanto assim de Álvaro de Campos e a adorar cada vez mais os “Quatro quartetos”, é que os 40 já se aproximavam. Quando passei a entender e aceitar algumas opiniões conservadoras do Eliot – que antes eu julgava absurdas –, já era praticamente um quarentão em espírito.

Quando passei a fazer compras no sábado à tarde – e sem reclamar – os 40 anos eram uma questão de (pouquíssimo) tempo.

Quando não me espanto nem fico revoltado se políticos mentem – afinal, eles são políticos, estão lá para isso mesmo... – eis os 40. (Desde que não matem, roubem e me encham o saco, já me dou por satisfeito.)

Descobri que o tempo tinha passado – e como foi bom. Não sou mais um adolescente, nem um tipinho engajado, nem um dono da verdade. Estou sozinho com minha mulher, meus amigos e minhas piadas. Ainda faltam dois anos para eu completar 40 – será que eu chego lá? Talvez sim. Seja o que Deus quiser.

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Enviado por Paulo Briguet, 25/06/2008 às 11:17

Santos


Quando a gente perdia algum objeto, Maria rezava para São Longuinho. Em poucos minutos, a coisa – chave, carteira, relógio, anel, dinheiro – era encontrada. Maria dava três pulos e três gritos: “Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho!”
Resolvi pesquisar sobre São Longuinho. Segundo as mais remotas fontes cristãs, era um militar romano que teria presenciado a crucificação. Com sua lança, ele feriu Jesus embaixo do peito. Do ferimento, saíram água e sangue. Os líquidos espirraram nos olhos do agressor, que se curou de uma grave enfermidade ocular e ali mesmo, aos pés da cruz, testemunhou a divindade de Cristo. Ou seja, Longuinho (ou Longino, cujo nome em grego significa “a lança”) seria o primeiro a ver o que os outros ainda não vêem – daí a sua capacidade de encontrar as coisas perdidas.
Quando alguém se engasgava, Maria batia nas costas da pessoa e invocava: “São Brás!” A tradição diz que São Brás, ao ser levado para o martírio, encontrou na beira da estrada um menino com uma espinha de peixe na garganta. Ele colocou as mãos na garganta do menino e o salvou.
Médico e bispo da igreja, perseguido pelos romanos, Brás certa vez refugiou-se numa caverna, onde os animais selvagens não o atacavam.
Por falar em animais, quando algum cachorro bravo chegava perto e a gente ficava com medo, Maria dizia: “Ai, meu São Roque”. Padroeiro dos inválidos e dos cirurgiões, Roque destacou-se ao tratar doentes da peste negra (por volta do ano de 1348). Quando contraiu a doença, refugiou-se nas montanhas para não contaminar ninguém. Só não morreu de fome porque um cão selvagem o alimentou. Roque se dava bem com animais: daí a invocação de Maria nos momentos de cachorro bravo.
E se as causas eram urgentes ou mesmo impossíveis, Maria chamava Santo Expedito. Esse era um militar corajoso, chefe da 12a Legião Romana, conhecida como A Fulminante. Seu ardor e generosidade eram capazes de resolver os problemas mais difíceis. Quando Expedito iria se batizar, o demônio apareceu na forma de um corvo e gritou: “Crás!” (em latim, “Amanhã!”). Expedito o afastou respondendo: “Hodie!” (“Hoje!”)
Tomás, filho do meu querido amigo Ranulfo Pedreiro, nasceu no domingo, dia 22 de junho – Dia de São Tomás More. O nome foi escolhido por um feliz acaso. Outro santo xará, Tomás de Aquino, era filho de Landulfo. Conta-se que Tomás de Aquino tinha cinco anos de idade quando viu um grupo de monges rezando. Perguntou a eles: “Quem é Deus?”
Tomás passou a vida inteira respondendo a essa questão. E o assunto não terminou até hoje.
Amanhã? Não: Hoje!

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Enviado por Paulo Briguet, 24/06/2008 às 10:22

Canção do coração


Toda minha vida
trabalhei a esmo,
como um farol
noite inteira aceso
sem achar resgate
no cais do relento.

Nas horas de calma,
nas de desespero,
fui a tua alma
e o teu corpo inteiro.
A cada segundo
eu batia à porta,
conduzindo o mundo
pela tua aorta.
(Assim fiz o fundo
de tua vida torta.)

Se amor e trabalho
fazem tua essência,
fui o teu milagre,
fui tua ciência.
Amei, trabalhei,
como a pedra cala,
como o homem pensa.
Só trabalha e ama
quem dentro da carne
bate e não reclama,
pura conseqüência.

Para tua lavra
Deus por sorte fez-me
- e, se fui escravo,
fora de mim mesmo.

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Enviado por Paulo Briguet, 20/06/2008 às 11:24

Até o último minuto

Você não precisa ter medo. Estarei ao seu lado até o último minuto da minha vida. Não sei quando esse minuto acontecerá; pode ser daqui a uma hora, pode ser daqui a 50 anos. Não sei o tempo, só sei o lugar: ao seu lado.
E não farei isso só porque prometi ao padre; não farei nisso porque é meu dever, ainda que ele exista; não farei isso por amor, ainda que ele seja incomensurável; farei isso porque não existe outro caminho. Partir longe de você está fora de questão.
Desculpe, mas agora terei que usar o bordão de Sérgio Mallandro: “Você tá triste? Não fique triste!” Não acho muita graça no Mallandro, mas admiro essa conexão imediata, quase xamânica, entre a melancolia e a felicidade. Você tá triste? Não fique triste!
E se digo com todas as palavras – até o último minuto da minha vida – é porque certamente você vai viver algum tempo depois de mim. Fique sossegada; estou bem; nunca me senti tão bem. Respiro, como, bebo, durmo, trabalho. Só precisaria caminhar mais um pouco.
Não fique triste quando eu partir. No dia em que isso acontecer, basta me procurar nos esconderijos da natureza, nos quintais abandonados, nas churrasqueiras, nas casas do outro lado da rua, no mínimo arbusto, no cachorro sem-noção. Você então lembrará que nasci pouco depois do ocaso, e nessa hora eu sentia uma combinação de desespero e tranqüilidade, de distância e presença, de pensamento e intuição. Você lembrará que, no final de uma tarde, eu pensei que todas as coisas visíveis e invisíveis, absolutamente todas, sem tirar nenhuma, estavam presentes no minuto da Criação. Aquela árvore é filha da primeira árvore. Aquela pedra é filha da primeira pedra. Aquela nuvem é filha da primeira nuvem. A sua sombra é filha da primeira sombra. O coração do homem desconhecido que cruzou a rua é filho do primeiro coração. E você é filha da primeira mulher e do primeiro homem, assim como estas palavras são filhas da primeira Palavra.
E se caminho na rua, e se dou uma cochilada no ônibus, e se leio um poema do Bruno Tolentino, e deito a seu lado e durmo, vejo as repúblicas que freqüentei; escuto as músicas dentro da noite; sento-me à beira de um riacho; piso a areia alva e quente de uma praia; desapareço no escuro de uma festa; converso com meu avô; tomo cerveja com meu pai; perco-me nos corredores de uma biblioteca interminável; procuro um livro no sebo; olho para um ipê que nunca mais floriu; ouço os latidos do meu cachorro que morreu há 12 anos e os galos das mais remotas manhãs.
Ouça bem. Estamos presentes, agora, no minuto da Criação. Você tá triste? Não fique triste!

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Enviado por Paulo Briguet, 13/06/2008 às 16:52

Modesta proposta


O Ministério Público de Londrina acaba de pedir o afastamento de quatro vereadores: Sidney de Souza (PTB), Gláudio de Lima (PT), Luiz Carlos Tamarozzi (PTB) e Jamil Janene (PMDB).
Eles são acusados de receber propina para votação de um projeto.
Sidney de Souza é presidente da Câmara de Londrina.
Gláudio de Lima é líder do prefeito Nedson Micheleti (PT).
Luiz Carlos Tamarozzi é corregedor da Casa.
Jamil Janene é peixe pequeno.
Minha modesta proposta é a seguinte: fechar a Câmara e a Prefeitura. Até ano que vem.

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Enviado por Paulo Briguet, 06/06/2008 às 14:49

Verdade seja dita

É, meu amigo, a vida deveria ser mais simples.
Vou dar um exemplo. Quando faltasse grana, alguém pararia a gente na rua:
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Quer ser “praca”?
– Ganha mais que garçom?
– Ganha.
– Então eu topo.
– Vem comigo. O emprego é teu.
Depois de um diálogo tão simples, a falta de dinheiro estaria resolvida. Você ganharia uma boa bolada só de carregar uma “praca” publicitária.
Mas isso só acontece em Londres. Aqui em Londrina, só param a gente na rua por outro motivo.
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Então vem fazer um empréstimo aqui na financeira.
O mundo é complicado. Principalmente se você mora em Londrina, não em Londres.
Hoje é um dia triste para você, meu amigo. A aliança não está mais na sua mão esquerda. Se você pôs a aliança ali – e eu sei bem disso – é porque pretendia ficar com ela a vida inteira. Não é por acaso que o coração fica do mesmo lado. Já passamos da idade de brincar com essas coisas.
Não deu certo. Fazer o quê? Talvez os budistas tenham razão: o segredo da felicidade é a eliminação de todos os desejos.
E o mais chato dessa história de separação devem ser os pequenos problemas. Contas conjuntas, financiamentos, contratos, aluguéis... Os móveis que vão, os móveis que ficam. O disco do Pixinguinha, o livro do Neruda.
E os amigos? E os parentes? E aquele pentelho que insiste em dizer: “Vocês ainda vão voltar, eu tenho certeza!”
Dói? Dói. Faz tempo que eu não sinto isso, e pretendo nunca mais sentir (meu casório vai muito bem, obrigado, tirei a sorte grande), mas é uma dor lascada e parece que não acaba. Comparável, só a dor de dente. Dor de separação é como se alma tivesse cárie.
A boa notícia é que passa, meu amigo. Desculpe o gilberto-gilismo, mas terei de falar: a dor passa, “ou não”.
A dor passa na gente da mesma forma que a gente passa numa rua. Esta nunca mais será igual. Mas, na memória, é a mesma rua para sempre. A aliança que você não usa mais continuará existindo mesmo depois que o sol apagar a marca no dedo. Estará ali e será a mesma; não adianta. Meu pai serviu exército em 1960 – e até hoje sonha que está no quartel. Aliança, rua, quartel – isso tudo é você. Às vezes você vai encontrar quem já foi embora há muito, muito tempo.
Cada vez mais tenho certeza de que amigo serve para isso que acabei de fazer: dizer o óbvio mais óbvio em momentos de crise. Verdade seja dita: o verdadeiro amigo é o rei dos truísmos. Ou não!
Muita paz, irmão.

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Enviado por Paulo Briguet, 04/06/2008 às 10:52

No tempo das quadrilhas

– O tempo esfriou, né, compadre?
– Só se for o tempo do céu. Que o tempo da terra parece que esquentou de vez.
– É o aquecimento global?
– Não, é uma quentura daqui mesmo. Uma fogueira braba. Tá assim de neguinho com medo de sair queimado. Teve um que resolveu mostrar as facas.
– Cruz credo. Tomara que isso não acabe em sangue.
– Sangue eu não sei, mas já tô sentindo cheiro de carniça.
– E de onde vem esse cheiro, compadre?
– Vem de tudo que é canto. Acho que é mais fácil dizer onde NÃO tá fedendo. Até defunto entrou na história.
– Tem gente que não respeita morto e ainda por cima dá emprego pra fantasma.
– E o que mais tem é capiau se fingindo de morto.
– Que saudade do tempo em que quadrilha era coisa de festa junina!
– Eu me lembro do tempo em quadrilha era coisa de Santo Antônio, São João, São Pedro. Isso acabou. Não tem mais santo nessa história.
– Antigamente o pessoal dançava quadrilha. Agora a turma forma quadrilha.
– E tudo que essas quadrilhas modernas menos querem é dançar.
– Que saudade, compadre. Que saudade das festas. Sempre alguém gritava: OLHA A COBRA! E outro emendava: É MENTIRA!
– Mentira inocente... E as músicas? Tinha uma que era assim: “Nesta noite de folguedo / Todos brincam sem medo / A soltar seu pistolão”. Com o tempo, o pistolão virou caso de polícia, compadre.
– Do jeito que a coisa ficou, muita gente podia sair por aí cantando: “Cai cai, balão / Cai cai, balão / Aqui na minha mão / Não vou lá, não vou lá, não vou lá / Tenho medo de apanhar”.
– Na quermesse, antes tinha quentão e batata doce. Hoje em dia é quentão e batata podre.
– Antigamente menino soltava bombinha. Não machucava ninguém. Agora é adulto que solta bomba. E das grandes. Sobra fagulha pra todo mundo.
– Antes a turma queria ganhar as prendas. Agora só pensam em delação premiada.
– Mas tem uma coisa que sobrou das velhas festas juninas.
– Quê?
– A cadeia, compadre. A cadeia.

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Enviado por Paulo Briguet, 02/06/2008 às 12:18

Alguém igual a mim

Alguém igual a mim
mora no mundo.
(Alguém igual a mim.)

Eu moro onde morre
a grande avenida.
Depois há um bosque
onde mora o lobo,
onde mora o anjo,
onde mora a morte
com seu nome santo.

Alguém igual a mim
mora no mundo.
(Alguém igual a mim.)

Eu moro onde morre
a grande planície.
Eu moro no morro
onde morre
a sombra do vidro.
Eu moro no morro
onde morre
meu nome esquecido.
Eu moro onde é.

Alguém igual a mim
morre no mundo.

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Enviado por Paulo Briguet, 02/06/2008 às 11:48

A zona do recanto e o recanto da zona

1º de abril de 1964. Não existe data mais simbólica e adequada para o nascimento de um político brasileiro.

*****

Só para constar: o vereador cassado, antes que as denúncias aparecessem, era um dos mais fiéis defensores do prefeito na Câmara. Com direito a indicações de cargos.

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Recanto Dá Licença fechado; recanto licencioso aberto. O recanto não tem zona; a zona tem recanto. Eis o retrato da cidade de Londrina.

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A Justiça proibiu a construção de mais uma hidrelétrica. Os ambientalistas comemoram. Por coerência, deveriam festejar à luz de velas. Depois, banho frio. Brrrr.

*****

Diogo Mainardi deu o furo: o Palácio do Planalto, via Ministério da Pesca, emprega a mulher de Olivério Medina, líder das Farc. Imaginem se o Bush colocasse o parente de um líder da Al Qaeda na Casa Branca. Os chapas-brancas tentam disfarçar, mas é praticamente a mesma coisa. O Brasil perdeu a capacidade de se escandalizar.

*****

O nome é Garotinho. Mas a quadrilha vem no aumentativo.

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O governo quer ressuscitar a CPMF. Sabe aquele personagem do filme “Sexta-feira 13”, o assassino que reaparecia depois que todos o consideravam morto e enterrado? Pois é. A nova CPMF deveria se chamar Jason.

*****

Há o festival de teatro, de música e de dança. Mas o maior festival ainda é dos impostos.

*****

Alguém aí conhece o país em que a população trabalha cinco meses para o governo?

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No final dos anos 60, Estela e Joel assaltavam bancos. Nunca se arrependeram. Hoje são os ministros Dilma Rousseff e Carlos Minc.

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No começo do século 20, o militante Koba assaltava bancos. Nunca se arrependeu. Depois se tornou mais conhecido por outro apelido: Stálin.

*****

Nos últimos anos, os fumantes têm sido vítimas de uma histeria coletiva. Antes, pelo menos, podiam fumar ao ar livre, em alas especiais de restaurantes e nos “fumódromos”. Não podem mais. Daqui a pouco vão ser proibidos de fumar dentro de suas próprias casas. E o pior é que são descritos como seres moralmente inferiores, sem força de vontade, suicidas e assassinos em potencial. Há um fascismo antitabagista no ar. E não digo isso em causa própria: não sou fumante.

*****

Para onde vão os cães e gatos que somem e nunca mais aparecem? Devem estar reunidos em algum lugar, planejando uma Revolução dos Bichos, uma arca de Noé às avessas, ao estilo de George Orwell.

*****

O financiamento da cultura em Londrina é feito quase que exclusivamente com verbas públicas. Tire-se o dinheiro da Viúva e a cultura local desaparece. Mas ninguém fala nada, com medo de perder a grana da próxima vez. O círculo se fecha. Já chegamos a 1984.

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Enviado por Paulo Briguet, 30/05/2008 às 11:58

Dá licença, prefeito!

O Recanto Dá Licença, um dos melhores restaurantes de Londrina, estará fechado a partir deste final de semana, “em razão da falta de consenso do poder público sobre o funcionamento de um restaurante naquele local”, segundo informam os proprietários. Enquanto isso, do outro lado da cidade, a casa de shows e encontros amorosos onde cantam “Galopeeeeeeeira” continua funcionando normalmente. Dá licença? A Prefeitura dá. Mas nem sempre. “Nunca mais te esquecereeeeeeei.”

******

Vocês viram como os ipês roxos estão bonitos? Um passarinho me contou que esses ipês não são árvores nativas do Norte do Paraná. Portanto, são exóticos. Como é objetivo declarado da atual gestão erradicar as árvores exóticas, o espetáculo das flores pode estar seriamente comprometido. Cuidado com a Moto-Sema!

*****

Coração me lembra a novela Saramandaia (o coração de um dos personagens saía pela boca). Saramandaia me lembra a música “Pavão Misterioso”, do Ednardo. Pavão misterioso me lembra o dia em que eu, o Chicó e o Rafael corremos atrás de um pavão durante um churrasco no Iate Clube. Iate me lembra milionário. Milionário me lembra milhão. Milhão me lembra Silvio Santos. Silvio Santos me lembra a Vó Maria. Vó Maria me lembra Castro Alves (a rua em que ela morava). Castro Alves me lembra a Cachoeira de Paulo Afonso. Paulo Afonso me lembra um garoto de óculos que estava na minha classe em 1981. 1981 me lembra o show do Queen no Morumbi. Queen me lembra o tio Machado, que brincava dizendo que o grupo deveria se chamar “Joaqueen”. Joaquim me lembra o português da padaria da Alameda Eduardo Prado. Alameda Eduardo Prado me lembra o antigo endereço do Zé em São Paulo. São Paulo me lembra Adoniran Barbosa. Adoniran me lembra Bellini; Bellini me Fellini; Fellini me lembra uma conversa em Presidente Prudente; Presidente Prudente me lembra chuva; chuva me lembra você; e você me lembra coração.

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Enviado por Paulo Briguet, 26/05/2008 às 11:20

O assalto às palavras

Na última sexta-feira, houve uma solenidade no gabinete do prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT). Confirmou-se o patrocínio de R$ 1 milhão aos três festivais da cidade (de teatro, música e dança). Os recursos vêm do orçamento da Prefeitura e da Caixa Econômica Federal. É, portanto, dinheiro público. Mas ai de quem falar que a cultura em Londrina foi estatizada. Políticos e produtores culturais lançarão raios vingadores sobre a cabeça do apóstata.
Contudo, o fato é inegável: tire-se o dinheiro público e a cultura de Londrina praticamente desaparece. À estatização da cultura, segue-se a estatização da crítica: no meio cultural, todo mundo sabe o que acontece, mas ninguém fala nada, por medo de que a verba não venha. Fecha-se o círculo.
Vivemos numa época em que as palavras estão morrendo. Algumas morrem de inanição, por uso abusivo e indiscriminado (ética, cidadania, povo, justiça social); outras são simplesmente proibidas. Estatização é um desses termos impronunciáveis. Trabalhamos cinco meses para o governo, mas a ninguém ocorre dizer que somos escravos estatais. E o presidente ainda fala em ressuscitar a CPMF!
Quando estourou o caso do mensalão, o governo logo montou a versão de que tudo seria “apenas” caixa dois (um crime supostamente mais palatável). Mas nem mesmo a expressão caixa dois foi usada; o tesoureiro Delúbio a substituiu por “recursos não contabilizados”. E assim ficou.
Em recente episódio, a Casa Civil afirmou que o dossiê contra FHC não era dossiê, era “banco de dados”. Depois, o nome mudou outra vez: banco de dados virou “base de dados”.
Por falar em banco, o ato de invadir um deles para roubar dinheiro tem nome: assalto. Mas, na época da ditadura, os grupos revolucionários de esquerda, quando cometiam esse crime, diziam que era “expropriação”. No final dos anos 60, a camarada Estela planejou “expropriações”. O militante Joel, da mesma organização, participou como assaltante, ou melhor, “expropriador”.
Estela é a atual ministra Dilma Rousseff (a mesma do “banco de dados”). Joel é Carlos Minc, indicado para ministro do Meio Ambiente. Não se arrependem do que fizeram; pelo contrário, orgulham-se. Dizem que estavam lutando contra a ditadura. Não dizem que lutavam para implantar uma ditadura pior – a comunista.
No início do século 20, o militante georgiano Koba ficou famoso por executar “expropriações” a bancos na Rússia. Mais tarde, ele se tornaria mundialmente conhecido por outro nome: Josef Stálin. Mas, se eu disser que Stálin e Dilma desenvolviam a mesma atividade na juventude, serei chamado de leviano e reacionário. Porque as palavras mudaram, perderam o sentido. Foram expropriadas.

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Enviado por Paulo Briguet, 23/05/2008 às 09:49

O césar e o mendigo


Por quatro dias, fui o homem mais rico do mundo. Tive nas mãos o ouro mais precioso. E, no entanto, esse ouro era também o mais sutil. Perdeu-se. Esvaiu-se. Voltará.
Não tive dúvidas em compartilhar com os amigos a minha felicidade. Não vejo por que não tornar pública, também, a minha tristeza. Sei que para nós, seres mergulhados no tempo, um e outro estado são frágeis e passageiros. A felicidade permanente só existe na eternidade.
“Agora vemos como que através de um espelho, mas depois veremos face a face.” O filho que se anunciou nestes quatro dias foi uma súbita iluminação; cheguei a imaginar sua face, suas mãos, sua voz.
Durante algum tempo, quando você esteve longe, meu amor, por minha única e exclusiva culpa, pensei que acabaria me tornando um mendigo.
Não foi o que aconteceu. Você voltou. Foi minha primeira e súbita riqueza.
A notícia destes quatro dias – de sexta a terça-feira – me transformou no oposto daquele mendigo antes imaginado. Agora eu era o césar do meu infinito e pequeno império. Só me esqueci de que esse império também é vulnerável e sutil. Pode ir embora em apenas quatro dias.
Na noite de segunda-feira, ouvimos as palavras do velho arcebispo. Ele disse que a insatisfação humana tem uma só origem: a saudade do Céu. No fundo de nossa alma, guardamos memórias indistintas (“como que através de um espelho”) do paraíso perdido. O velho Freud, que não acreditava no Céu, disse que a felicidade humana não estava prevista no plano da Criação. Depois destes quatro dias, eu sei que Freud estava errado e o velho arcebispo, certo.
O velho Camões fala sobre a saudade do Céu nos versos de “Sobre os rios que vão”. Li uma passagem do poema no adeus ao poeta e amigo Thomaz D’Amico: “Não é logo a saudade / das terras onde nasceu / a carne, mas é do Céu, / daquela santa cidade / donde esta alma descendeu”. Leio-as agora, mais uma vez, no adeus ao filho que por ora perdemos. Ele preferiu partir a mergulhar no tempo. Nós ficamos tristes, por enquanto, porque vimos um átimo da eternidade. Voltará. É da essência da eternidade o poder de ressurgir. De uma tal certeza, retiramos as forças para aceitar – e recomeçar.
No Gênesis, o incomparável poema da Criação, Deus faz a luz no primeiro dia; depois, o céu e a terra; depois, o mar, os continentes e as plantas; no quarto dia, o Sol e as estrelas. O homem só seria criado no sexto dia.
Ontem você viu uma estrela cadente, enquanto eu falava de meus pecados. Hoje sei que sou apenas um homem – nem césar, nem mendigo, talvez os dois ao mesmo tempo. Com as mãos estendidas, espero o sexto dia e o ouro sutil de nosso filho. Saudade.

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Enviado por Paulo Briguet, 19/05/2008 às 11:14

O homem mais rico do mundo

Todo mundo tem ouro escondido em casa. Tanto isso é verdade que distribuem aqueles mosquitinhos de “Compro ouro” nas esquinas do centro. Se há gente comprando ouro, é que as pessoas têm ouro. No fundo de gavetas, na solidão de caixas antigas, no escuro dos armários, em fundos falsos, em cofres ocultos, nos esconderijos mais improváveis – lá está o ouro.
Quando os ladrões invadem uma casa, vão logo perguntando pelo ouro, e por sua tradução em forma de cédula, o dólar. Mas acontece que o dólar pode se desvalorizar, como está acontecendo agora. O ouro, não. O ouro permanece valioso para toda a eternidade.
Pois, meus amigos, eu confesso que agora também tenho ouro escondido em casa. Não é ouro em pedra, não é ouro em pó, não é ouro em jóias. Também não é o ouro-dólar, o ouro-euro, o ouro-yuan. É simplesmente um ouro escondido no templo mais sagrado do universo. É meu filho: o ouro puro da vida, a mais reluzente das fortunas.
Nunca tive jeito para ganhar dinheiro. Infelizmente não tenho vocação para acumular capital. Mas hoje eu me sinto o homem mais rico do mundo. E agradeço ao poeta da Criação, esse garimpeiro do impossível.

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Enviado por Paulo Briguet, 16/05/2008 às 17:11

Ave, dicionário

Não tenho palavras
para o dicionário.
Um livro entre os livros
extraordinário.

Um livro de termos
que buscam sentido
– e, só de o termos,
temos um amigo.

Dito pai dos burros,
é bem diferente.
Livra dos apuros
iletrados sábios
eruditos parvos
– pai de toda a gente.

Tem o dicionário
tudo a dizer.
Como pote ao fim
do tênue arco-íris
tende a dizer sim
este liber libris
que há de A a Z.

Assim diz o vário
livro das palavras.
Ele é o amparo
que tu procuravas.
Ele é o poema
das definições.
Ele é romance
mais inacabado.
Boca de Machado,
língua de Camões.

Fico sem palavras,
tendo ao silêncio
quando nestas folhas
paro, olho e penso.
Donde eu estava,
disso estou certo,
ele estava perto.

Fonte da clareza,
morte dos enganos,
ele é o mais raro
dos papéis humanos.
Símile das coisas,
síntese dos idos,
sol que unifica
os duplos sentidos.

Ave, dicionário.
Sem ti, não sei nada.
Mesmo quando durmo
és o astrolábio,
mostras-me o rumo
mesmo do inefável.

Mas és diferente
de um pai patrão;
és a velha norma,
és a própria forma
do velho Platão.
De cada verbete
és o próprio irmão.

Dentro da caverna,
casa da palavra,
és a luz eterna
que se procurava.

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