Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 21/11/2008 às 22:25
– Escuta... as cotas pra negros nas universidades são pra negros ou pra afrodescendentes?
- Afrodescendentes - com traços. A pessoa pode ser parda ou pode ser negra de cabelo liso e olhinho japa.
- Afrodescendentes = descendente de africanos? Porque afrodescendente, pra mim, não é negro. E se são afrodescendentes da África do Sul, loiros?
- Mas "afrodescendente" é relativo à raça, e não à nacionalidade.
- Não é oriundo da África? Afrodescendente e negro é a mesma coisa? Isso é que é preconceito!
- Afrodescendentes são os descendentes dos moradores originais do continente africano.
- E se minha mãe é branquela e meu pai é negro e eu nasço branca? Não tenho direito à cota na universidade?
- Aí você, muito provavelmente, não sofreu preconceito por ser visualmente negra.
- Mas meus pais não poderiam pagar minha faculdade porque meu pai sofreu preconceito e tinha um emprego de merda.
- ...
- E a Escrava Isaura, que era branca? Meu Deus, a Escrava Isaura! Quem vai arcar com o fato de que a Escrava Isaura não tem direito à cota???
- Ela entra na de baixa renda, já que era escrava. Quer dizer, antes de virar sinhá, né?
- Ah, é, ela casou com um ricão.
- Então, daí ele paga a Unicenp.
regras para comentários |
comentários (3827)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 27/10/2008 às 12:03
Tem dias em que tudo aperta. A calça, o sutiã, o peito. A roupa não cabe mais. O mundo não cabe mais. Tudo incomoda. Eu, você. Sair de casa. Ficar em casa.
Tem dias em que a sensação é a de estar dentro de um saco de estopa fechado. Tentando se livrar do cheiro, conseguir ar puro, esticar as pernas. Arriscar sair e ficar mais presa. Ou, pior: sair e se enfiar em um mundo que não cabe.
Tem dias que mesmo se Terra fosse Júpiter, ainda pareceria pequeno como um daqueles apartamentos baratos e ditos modernos que eles mostram na tevê. Porque tem dias que não cabe todo mundo nessa cidade, eu não caibo nessa roupa e ninguém cabe nessa casa.
Tem dias que mesmo correndo sozinha pelo Parque Barigüi, falta espaço e falta ar. Em que o congestionamento de pessoas presas ao pé da cama e a idéias antigas faz com que eu me recolha presa ao meu próprio quarto.
Tem dias que a culpa disso é minha, mas eu gosto de pensar que foi o mundo que encolheu pra eu poder continuar apertada e reclamando. Porque eu queria um mundo só meu, com todas as respostas e todos os que eu gosto.
Tem dias que há tanto pra ser feito e nada sai, atolado em pés de camas e sacos de estopa. Espremidos em roupas e apartamentos pequenos. Cheirando esquisito e sem vontade de se mexer.
Tem dias que é assim. Mas aí vem o sol...
regras para comentários |
comentários (5)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 02/08/2008 às 12:04
Pergunte a qualquer criança de cinco anos se as abelhas comem mel e elas gritarão “siiim”! Para, em seguida, correr, pular e se estabacar no chão.
Eu, particularmente, nem gosto dessa coisinha doce. Mas, pega por uma tosse que pulou no meu colo e insiste em não ir embora, o mel agora faz parte do cardápio. Com limão, do jeito que minha mãe disse pra eu fazer. E foi enquanto eu misturava os ingredientes do elixir pró-pulmão que eu me questionei: as abelhas comem o mel?
Comecei uma enquete. Obviamente, excluí os seres com cinco anos de idade por sua pouca credibilidade enquanto formadores de opinião. Conversei com pessoas graduadas, que levaram o enigma a sério e formularam hipóteses para a função do mel nas colméias – mas não, ninguém respondeu serelepe, com aquela alegria que só os convictos têm.
A gente insiste em complicar.
Pergunte a uma criança de sete anos o que acontece quando um menino gosta de uma menina. Eles ficam juntos, se beijam, namoram. Essas devem ser as respostas mais prováveis. Em uma revista feminina, a mesma pergunta levará a uma enquete com moços solteiros, depoimentos de pessoas que contam como conquistaram o amor de suas vidas e um passo-a-passo de como fazer charminho e prender o gajo pra sempre.
Não pode ser tão difícil. Eu disse a ele: “não compra um apartamento não, vem morar comigo”. Ele veio.
E, sim, as abelhinhas comem mel.
regras para comentários |
comentários (17)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 24/06/2008 às 12:57
Esses dias, lendo Bukowski: "como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?".
Quando eu morava no interior, eu costumava brincar de bem-me-quer com aquela florzinha chamada maria sem-vergonha (reza a lenda que o nome é esse porque ela dá em qualquer lugar, mas isso não vem ao caso). A dita plantinha era uma ótima escolha para a brincadeira, porque tinha cinco pétalas e sempre dava bem-me-quer.
Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer! Rá!
A gente se acostuma a essas coisas. E acha que se o moço quer bem a gente hoje, também vai querer amanhã. E depois de amanhã. E pra sempre. Eu achava que isso devia ser bom, mas, hoje, “pra sempre” me assusta muito, muito, mas muito mesmo.
Meda-pânica-horrora.
Eu aprendi que amor dura pro resto da vida – quiçá da morte – e o resto é balela. O que quer dizer que não vai dar pra te amar hoje e amanhã já não estar bem certa disso.
Foi assim que o dilema começou.
Eu fitando os olhinhos castanhos mais verdes do mundo. Aquele par de olhos que me faz sorrir mesmo quando eu estou chorando. E lá dentro da minha cabeça vem aquela voz maldita: “é, minha filha, cê tá ferrada... cê ama esse rapaz aí”. Lascou-se: digo ou não digo?
E se amanhã eu não amo mais? E se amanhã eu conheço um dos dez mil que eu amaria mais se conhecesse? Pior, e se eu digo que amo e ele não diz nada?
Devia ser tão simples. É só amor. Só um bem-me-quer na flor dele. Pouco importa se amanhã a flor vai mudar de resposta.
Válido só pra hoje: oi, eu te amo!
regras para comentários |
comentários (10)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 30/05/2008 às 11:31
Um desses dias normais. Uma manhã cinzenta, típica de Curitiba. Mas não se anime: eles também não se intimidam com o sol.
Eles são violentos. Eles não têm piedade. Mesmo que você esteja preparado pro ataque e tente fugir, eles te alcançam. Quando consegue se dar conta, já está em poder deles. Sequestrado. Amarrado. Amordaçado.
“Nada de mau vai acontecer se você ficar quietinha”. Mando uma mensagem de socorro pelo celular. Nada. Ou eu não tenho crédito ou ninguém está preocupado comigo. Talvez já tenham pedido o resgate e os meus entes queridos estejam proibidos de fazer contato comigo.
Começo a perceber que preciso de um plano. Eu que não vou ficar aqui sabe Deus até quando! Inicio uma análise de possíveis saídas e afins. Digo que preciso fazer xixi, assim posso observar melhor o ambiente. Um deles me acompanha – eu noto uma saída um pouco há frente. Ensaio uma corridinha estratégica quando eles parecem distraídos. É agora.
Cruzo o corredor triscando. Começa a perseguição. Eles atiram, e eu sinto que fui atingida. Olho pra trás e vejo os edredons em formação me atirando travesseiros e os lençóis logo ali no meu encalço.
Não tem escapatória. Eu volto pra cama pra dormir mais meia horinha.
É assim toda manhã. Os lençóis me amarrando na cama, os travesseiros ensaiando sufocamentos e os edredons na retaguarda. A gangue da cama quentinha ataca milhares de cidadãos todos os dias e ninguém faz nada. Cadê as autoridades? Cadê a polícia?
regras para comentários |
comentários (9)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 11/05/2008 às 20:56
Ela chegava em casa e gritava pela mãe. Se não tinha resposta, corria até o guarda-roupa pra ver se ainda estavam lá os vestidos, calças e casacos daquela que devia ser a pessoa que mais a amava no mundo. Sempre estiveram, felizmente. Foi assim durante algum tempo. Tempo demais, quando se é criança.
As roupas dela sempre estavam lá. A mãe, não.
___
Eu não sou mãe. Eu não sei descrever o que é ser mãe. Só sei dizer sobre o que é ser filha.
Devia ser fácil, mas não é.
Ser filha é esperar que alguém a ame incondicionalmente. É querer colo – e ganhar sem pedir. É agradecer pela educação, pelos bons conselhos e por guiar a sua vida. É olharem nos seus olhos e saberem que você está mentindo, mesmo que não queira mentir. Mais que tudo, ser filha é aprender a viver sem isso.
A gente aprende que as mães não vão fugir. Que vão nos apoiar e estar sempre lá. Que vão amar igualitariamente todos os filhos. E nem sempre isso é verdade. Porque, veja só, as mães também falham. Ao contrário do que dizem as propagandas do início do mês de maio, o ser materno não é essa criatura mítica repleta de amor, bondade e cumplicidade durante as 24 horas do dia.
Mães têm seus próprios problemas. Mães têm contas a pagar, amigas chatas, chefes indóceis, além de suas próprias mães. E filhos não são sempre objetos de satisfação – talvez não sejam durante a maior parte do tempo. Mães são seres humanos, mas a gente não espera que elas errem com os filhos. Só que elas erram. E é um erro que dói mais que qualquer outro na vida.
Ser filha é aceitar a tarefa de perdoar essas falhas. E de, ainda assim, amar sua mãe mais que tudo.
regras para comentários |
comentários (4)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 22/04/2008 às 12:47
- A vó mandou perguntar se você tá namorando.
- Não, mãe, não tou.
- Então deixa eu perguntar: e paquerando, você tá?
Eu me pergunto sempre que diabos minha mãe quer dizer com eu estar paquerando alguém. Ela tá querendo saber do cara que pediu meu telefone no mercado ou do provável futuro namorado que vai finalmente desocupar os armários onde ela guarda meu enxoval?
Sim, eu tenho um enxoval.
Eu não sei se eu já tinha escrito a palavra alguma vez na vida. Olhando assim pra ela, sinto até um certo calafrio. Mas é fato: tá lá, na casa da minha mãe. Panos de prato com detalhes em ponto cruz, toalhas de mesa crocheteadas, lençóis com bordado inglês. Tem até toalhas de banho que eu, moça prendada, bordei – ninguém me disse, na época, que eu só poderia usar quando casasse.
Acredito que já deve ter sido muito chique ter um grande estoque de cama-mesa-e-banho. Toalhas fofinhas que secariam o seu benzinho, guardanapos que limpariam aquela boquinha que você ia encher de beijo, cobertores para esquentar o casal de pombinhos. Enxoval era uma coisa caramelo, doce e cheia de açúcar.
Hoje, um enxoval é muito mais que o kit básico para o amor recém-casado. É a esperança de que haverá um casamento. Um dia. Com festa, vestido branco e bolo com noivinhos. Com arroz na saída da igreja e um sermão que a noiva não vai prestar atenção pra não chorar e borrar a maquiagem. Enquanto houver cobertores peludinhos e toalhas com bico de crochê, sempre pode haver casamento.
É por isso que minha mãe não deixa eu mexer no meu.
- A mãe ainda acha que você casa.
- Mãe, pode ser que eu não case nunca.
- Vamos esperar mais um pouco.
E assim vai. Eu titubeio pra responder se estou paquerando alguém, mas acabo admitindo que sim. E lá vão mais uns lençóis pro armário da minha mãe...
regras para comentários |
comentários (7)
enviar | link permanente
Enviado por Letícia Simoni Junqueira, 13/04/2008 às 17:22
Ele desliza os dedos pelo piano. Eu estudei piano quanto tinha lá meus oito anos ou coisa parecida. Aulas de piano clássico. Eu achava divertido, mas queria pular os livros de Leila Fletcher e sair tocando blues e jazz, como se soubesse o que era isso na época.
Eu sempre quis que as coisas fossem fáceis, e quando foram eu achei que não eram divertidas o suficiente. É por essas e outras que eu preferi pensar que amor é aquilo que dói, enquanto você se abraça numa garrafa de vinho e ouve as teclas do piano serem acariciadas. Aquilo que faz você chorar baixinho na cama, a cabeça entre os travesseiros enquanto se preocupa com o que os vizinhos vão dizer ao ouvir os soluços.
Que se danem. Amor é aquilo que entra como um saca-rolha bem no meio do peito pra levar um pedaço embora, especialmente quando esbarra com o bem-amado abraçado a alguém no meio da rua. Que faz amaldiçoar o vinho ter acabado e a música não. É Roberto Carlos cantando “a sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo”.
As grandes histórias de amor são sempre tristes. Não há roteiro que suporte a felicidade constante. E eu continuo ouvindo o piano e pensando que deve ser mesmo coisa de fazer dar tudo errado e ter sempre coisa pra contar.
Problemas são a minha especialidade – ao contrário do piano. Acho que “Danúbio Azul” foi tudo o que sobrou dos meus conhecimentos com esse instrumento de corda que é cheio de teclas. E é tão mais fácil ser triste...
Mas hoje cedo, escovando os dentes e ouvindo o piano, eu entendi. Pode ser que o piano não pare de tocar pra você me tirar pra dançar e a gente sair rodando por aí. Pode ser que o amor seja a gente andar de roda gigante sem nem chegar perto do parque de diversões. Sair assoviando na rua com as pessoas olhando e achando tudo muito esquisito.
De repente, amor não é aquilo que dói. Mas aquilo que faz feliz.
regras para comentários |
comentários (46773)
enviar | link permanente
Ipod Nano Apenas R$ 599,90
3600 Nokia Apenas R$ 606,99
TV LCD 22" A partir de R$ 899,00
Câmera Digital A partir de R$ 159,90
Notebook Toshiba A partir de R$ 1.699,00
Playstation 2 A partir de R$ 450,90
Monitor 17" A partir de R$ 249,00